quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Seja o que Deus quiser!

Lição para a vida toda

Em pé: Zé Maria. Tobias. Moisés. Ruço. Ademir e Wladimir.
Agachados: Vaguinho. Basilio. Geraldão. Luciano e Romeu.

Há 30 anos, o Corinthians saía do jejum de títulos com aquele gol de canela do Basílio contra a Ponte Preta, no estádio do Morumbi. Foi exatamente no dia 13 de outubro de 1977 que deixamos para trás o pesadelo de 22 anos, quase 23, sem erguer nenhuma taça.

Nenhuma goleada contra o maior rival, nenhum gol de placa, nenhum campeonato mundial, nada pareceu mais importante do que aquele momento aos 38 minutos do segundo tempo. E mesmo o corinthiano que não esteve no Morumbi no dia 13 (até quem já tinha morrido, ou quem nem tinha nascido) sacudiu, vibrou, chorou, gritou, riu (e nasceu de novo!) com aquele gol.

Durante os 22 anos de fila, a torcida do Corinthians foi a que mais cresceu no País. Ganhamos a alcunha de fiéis e nos tornamos o que somos hoje: quase 30 milhões de corinthianos que não abandonam o time, esteja ele na situação que estiver. Herdamos dessa época o amor incondicional por esse escudo e a defesa de nossa história a qualquer custo.

Depois daquele Campeonato Paulista conquistamos outros tantos, mas nenhum será tão importante quanto o de 1977. Nenhum gol de placa será mais bonito do que aquele gol confuso de Basílio. E nenhuma torcida será tão fiel e tão feliz quanto a sofrida torcida corinthiana.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Alma y el corazon

Xeneizinho no jogo. Reparem na neblina


Diário de viagem – Quinta-feira – Jogo do Boca

Boa parte dos corinthianos que eu conheço simpatiza com o Boca Juniors muito antes do Tevez chegar ao Coringão. Seja pelo gosto ao futebol raçudo, suado e sofrido; pela identificação com a postura da torcida; pela conquista do título da Libertadores em cima do parmerinha; pelo ódio eterno ao River Plate. A vinda do Tevez ao Corinthians só aumentou a reciprocidade do carinho.

Sou apaixonada por ver jogo em estádio de futebol desde pequena e penso que se o bate-bola fosse restrito a tela da televisão o meu amor pelo Corinthians não seria assim tão grande. Tem muito a ver com a torcida, a troca de energia, a alegria, a tristeza, com estar presente, gritar, se fazer ouvida e ouvir, se sentir viva.

Por esse motivo ir até Buenos Aires e não ver um jogo do Boca é quase impensável para todo mundo, corinthiano ou não, que gosta de ver uma partida en la cancha. No começo, hesitei pelo preço e agradeço ao Daniel por não ter me deixado desistir. Pobre não gasta $160 dinheiros assim tão fácil, mesmo se os dinheiros forem pesos argentinos. Mas depois de ir posso dizer com a toda a convicção do mundo: pagaria o preço que fosse.

Uma entrada da partida entre Cúcuta e Boca Juniors era ultra-disputada pelos torcedores e nas bilheterias não era mais possível comprá-la. Semifinal da Taça Libertadores da América e o Boca precisava vencer por, pelo menos, 2 a 0, porque tinha perdido o primeiro jogo por 3 a 1.


Pior profissão do mundo: catador de papel na Bombonera

O acesso às arquibancadas então era quase impossível porque elas não são vendidas para não associados ao clube. Por isso, compramos as entradas em um esquema para turista, conforme citado na postagem anterior. No horário combinado, chegamos ao albergue e colocamos mais uma porção de agasalhos. A neblina e o frio eram de cortar o rosto.

Daniel implicou com a camiseta do Corinthians:

- É muito perigoso ir com roupa de outro time, Léla. Eles vão te bater e em seguida te matar.

Ele já tinha ido a uma partida entre o Nueva Chicago e o Boca na Bombonera e eu resolvi seguir seu conselho porque realmente não queria sair com escoriações de lá.

Fomos para a porta do albergue e encontramos mais duas pessoas que iriam conosco ao jogo: um era colombiano, torcedor do América de Cali, outro era de Mossoró, torcedor do Mossoró Esporte Clube. O jogo estava marcado às 19h e o ônibus passaria para nos apanhar as 17h30.

- Pode beber cerveja na calçada de Buenos Aires? – perguntou o colombiano.

Eu não entendi muito bem a pergunta, visto que aqui no Brasil é possível até morar em uma calçada, mas parece que na Colômbia quem bebe em espaços públicos pode ser confundido com alguém das FARC. Os homens foram comprar cerveja em um Kiosco (aqui, mais conhecidos como quiosques) e eu fiquei esperando o ônibus.

Não me lembro bem a marca, mas era uma boa cerveja e custava $4 pesos. Um litro também e uma para cada um. Assim que eles abriram as garrafas, chegou o ônibus.

- Não pode entrar bebendo no veículo – disse um dos organizadores.
- Ah, ninguém aqui vai jogar fora as cervejas.
- Tudo bem.

E fomos levados até um ônibus escolar caindo aos pedaços que já estava lotado de turistas de outros albergues que também iam ao jogo. Quase todo mundo devia ter entre 18 e 20 anos. Esse talvez tenha sido o único momento que quis ser argentina: para me diferenciar daquela molecada do intercâmbio que nunca tinha ido a um estádio de futebol e ia pela primeira vez de ônibus escolar. Senti vergonha.

Os turistas eram de lugares variados do mundo e conversavam em diversas línguas. Quando nos aproximávamos da Bombonera, a turma do fundão do bumba começou a entoar um:

- U.S.A.! U.S.A.! U.S.A.!

E eu coloquei touca e óculos escuros porque não queria ser reconhecida por ali, embora ninguém me conhecesse na Argentina.

Entramos no estádio e quando olhei para o gramado quase chorei. Não era possível ver absolutamente nada por causa da neblina. Tudo branco. Mal se via os refletores, nem pensar em ver La Doce na arquibancada da frente, atrás do outro gol. "Não vai ter jogo", pensei.

- Não acredito que pagamos tudo isso para não ver nada! – lamentou o Daniel.

A aquibancada já estava quase toda tomada. Nos afastamos da juventude u.s.a., eu, Dani, Mossoró e Cali, e fomos sentar bem longe de todos eles. Sentar é modo de dizer. Os degraus dos estádios daqui são bastante largos, suficientes para espremer cinco pessoas, uma na frente da outra, como os nossos organizadores estão acostumados a fazer. Lá, o degrau é fino e quase não cabe o seu pé, o que é bastante assustador por causa das arquibancadas íngremes.

Quando olhei para trás, a primeira coisa que vi foi um torcedor com um agasalho do Corinthians.

- CORINTHIANS! – gritei, sem me conter.
- Você é corinthiana?
- Sim, sou. E você? É brasileiro?
- Não, sou argentino. Comprei quando fui ver o Boca jogar no Brasil, na final contra o Santos.

Está vendo, Daniel?!



A bandeira de La Doce é pequenina comparada com a nossa

A cerveja bateu e eu precisei ir ao banheiro. "Se os banheiros dos restaurantes são daquele jeito, imagina o da Bombonera?", mas era melhor não pensar nisso. Quando entrava no sanitário feminino, um homem saía dali e eu fiquei bastante assustada, porque eu não queria morrer, nem sofrer escoriações, muito menos ser molestada em Buenos Aires. Mas deu tudo certo e eu continuo virgem. E o banheiro, por mais esquisito que seja, era muito mais limpo do que a maioria dos restaurantes sofisticados que a gente foi.

Voltei para meu lugar e nada do jogo começar. A neblina continuava ruim, a arquibancada foi enchendo, as pessoas foram se espremendo. Fiz amizade com um velhinho do lado que me apontou o Maradona em seu camarote:

- Lá está Dios.
- Amém.

Até que anunciaram no alto-falante que o jogo atrasaria uma hora para ver se neblina subia. Automaticamente todo mundo sentou ao mesmo tempo. Eu fiquei com os pés nas costas do senhor da frente, com uma banda em cima do velhinho e outra em cima do Daniel, que por sua vez estava em cima de desconhecidos.

Fiquei pensando que se fosse no Brasil o jogo estaria começando às 21h45 por causa da novela e jamais atrasaria uma hora porque isso desestruturaria toda a programação do canal 5. Aqui, a Rede Globo é muito mais poderosa do que a mãe natureza.

Com o estádio já cheio, os torcedores começaram a pular e a cantar. A La Doce puxou uma música chamando a nossa arquibancada para cantar também. E conforme todos cantavam e todos pulavam, a temperatura esquentou e a neblina subiu como mágica. Isso é saber cumprir o seu papel dentro do estádio. Sem a torcida, não existiria jogo, nem aquele, nem nenhum.

Oito da noite começou o show. Quando o Boca entrou em campo, uma chuva de papel veio das arquibancadas e os gandulas precisaram de muitos minutos para limpar o gramado. As músicas eram acompanhadas pela bateria. Maradona acenando para a torcida e fumando um charuto cubano. A fumaça agora vinha dos foguetes coloridos, lançados pela torcida.

Mal o juiz apitou, o goleiro do Cúcuta começou a fazer firula. O velhinho do meu lado, aparentemente inofensivo, gritou um:


- Negro puto!!!!!!!!!!!


Eu e o velhinho carcamano


É o que eu disse sobre os mais velhos serem preconceituosos e reacionários. Aliás, quase não se vê negros em Buenos Aires. Durante sete dias, contei três.

Assim como seus companheiros de equipe, o arquero queria ganhar tempo porque tinha a vantagem. Não é fácil ganhar na Bombonera, não com essa torcida a flor da pele. E o Cúcuta veio todo retrancado.

Ninguém perdoou:

"Que lo vengan a ver, que lo vengan a verEso no es um arquero, es una puta de cabaré"

Para lá de humilhante. E toda vez que ele ia bater um tiro de meta, a torcida entoava um:

- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO…

e ao chutar a bola, um:

- PUTOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!

Toda vez, sem exceção.

Mas mais arrepiante que as músicas, o que deu vontade de chorar foi o silêncio. Ele, que me dá ódio nos jogos do Corinthians, ali me emocionou. Entre as músicas, nos momentos de apreensão, ninguém conversava no estádio, ninguém falava. Um silêncio sepulcral. Era possível ouvir a neblina. Para depois de uma jogada bonita, um drible, um quase gol, a torcida explodir em ritmo:
"Boca Juniors, Hoy te vinimo a verponga huevo, hoy no podes perderTe llevamos, dentro del corazónY la 12 quiere que salgas campeón…"

Sim, ponga huevo se refere ao escroto dos jogadores. É como se eles dissessem para "jogar com os colhões". Os argentinos realmente têm problemas com bolas.

E quando eles decidiram jogar com os ovos, Riquelme acertou no ângulo e abriu o placar aos 43 do primeiro tempo. O gol foi dedicado ao Maradona. Eu logo me preparei para sair correndo, fazer a tal avalanche e voltar correndo para ajudar o Daniel que certamente seria pisoteado, mas eles não fizeram. Só gritavam e abraçavam os desconhecidos em meio aquele sentimento comum. Eu ganhei um abraço apertado do velhinho.

No meio tempo, todos se sentaram e a situação parecia ainda pior. Mas eram só dez minutos. Para animar os rapazes, as cheerleaders entraram em campo e começaram a rebolar, exatamente como aqui. E ouviram-se os mais variados elogios grosseiros, exatamente como aqui.

- Não digam isso dela. Ela é a mãe dos meus filhos!!!!! – gritou o velhinho-meu-amigo.

Bastou para eu rir os dez minutos.

Quando o jogo começou, as músicas voltaram e Palermo fez o segundo, aos 15 minutos. Do nosso lado da arquibancada, uma bateria de fogos foi queimada e o jogo foi interrompido porque era fumaça demais para prosseguir. Mas era alegria demais também porque com esse placar o Boca estaria classificado para a final contra o Grêmio.


Depois dos 3


Mais duas vezes o jogo teve de ser parado, mas agora por conta da neblina que insistia em voltar. A neblina descia, a torcida pulava, gritava e cantava, aquecia o estádio, e ela subia. O jogo continuava. Fundamental.

Para consagrar a noite, Battaglia deu mais um de presente aos xeneizes. Boca na final. É muito huevo.

****
Quando o apito do juiz soou, ficamos mais uns 40 minutos dentro do estádio, esperando a torcida do Cúcuta sair. Nem eram tão numerosos, mas acho que esperamos eles chegarem até a Colômbia para sermos liberados. Lá fora, um frio de rachar e a neblina que não deixava ver um palmo na frente do nariz.

Me recusei a voltar de ônibus escolar com aquela gente nada a ver depois do espetáculo que vi. Queria é falar castelhano e tomar uma Quilmes, sair dançando o tango mais bonito de Gardel.
A cidade estava parada. Os carros não andavam, os táxis não paravam, os ônibus apinhados de gente. O jogo travou Buenos Aires e o bairro da Boca. Sinal de que lá tem tantas condições para se fazer uma partida desse porte quanto aqui.

Enquanto andava pelas ruas de La Boca até San Telmo bateu uma saudade de outros tempos de arquibancada, das bandeironas de bambu e das camisas da Kalunga. Quando o que importava era o Corinthians e as vaidades eram todas colocadas de lado. De uma torcida que era divertida, séria e comprometida, tanto quanto os xeneizes, e que me fez nunca deixar de ir aos estádios. Bateu uma saudade de casa e uma esperança de que um dia todo corinthiano vá ver o que eu vi, aqui e lá.


Puerto Madero, depois do jogo. E a neblina, hein?

Outro alvo

O Painel da Folha de S. Paulo de hoje, 17 de agosto, traz uma notinha em que Romeu Tuma Jr. afirma que vai pedir uma CPI do futebol para investigar "lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, casos de pedofilia e envolvimento de torcidas uniformizadas com o crime organizado". Acho ótimo, porque, se provado que isso realmente existe, deve servir para moralizá-las. Mas não lacrá-las.

Na Polícia Civil, na Assembléia Legislativa e em outros lugares que Tuminha costuma freqüentar já foram descobertos e provados casos iguais e ainda piores do que esses que ele está pedindo investigação. Até em seu próprio partido, o PMDB, e no DEM de seu pai, antigo PFL.

Não que eu queira comparar as Organizadas com esses tipos de instituições. As torcidas são infinitamente mais inofensivas.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ai, Manoel

Manoel Maximiano Junqueira Filho é o primeiro dos seis filhos de Manoel Maximiano Junqueira com Maria Lília Silva da Cruz. Escorpiano, nasceu no dia 10 de novembro de 1962, meses depois de o Brasil ter conquistado o bicampeonato mundial no Chile. Gilmar, Nilton Santos, Mauro, Zózimo e Djalma Santos, Zito e Didi, Zagallo, Vavá, Amarildo e Garrincha. Time viril aquele.

O bisavô de Manoel, que o garoto não chegou a conhecer porque faleceu dois anos antes de seu nascimento, veio da Ilha da Madeira para o Brasil trabalhar na lavoura depois da abolição da escravatura e se estabeleceu na região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Antônio Lopes Velludo e sua esposa, Eugênia Gouveia Velludo, tiveram Clotilde, a Tida, e mais outros tantos filhos. Tida era a avó paterna de Manoel.

Apesar do nome de jogador, Junqueirinha, como era chamado na escola pelos colegas, sempre ficava no banco. Tremendo perna-de-pau, quando muito era escalado para o gol na ausência de Cotoco, o amigo maneta que fazia melhor o serviço. Mas bastavam cinco minutos em campo e lá vinham os frangos, engolidos um atrás do outro com uma fome de ontem. E, em seguida, uma chuva de tapas na cabeça dos coleguinhas mais nervosinhos que não queriam Junqueirinha no time nem pintado de ouro.

Toda a quinta-feira, dia da Educação Física na escola, Dona Tida esperava o neto de braços abertos em sua cadeira de balanço no canto da sala. Religiosamente, o menino chegava ao fim da tardinha e chorava escondido do pai no colo da avó. Seu Manoel, salazarista e fã número um de Amarildo, sonhava em ver o filho mais velho um craque da pelota, jogador profissional do Botafogo de Ribeirão Preto. Mas com a habilidade de Junqueirinha o pobre garoto não conseguiria nem o cargo de roupeiro.

Se ainda fosse forte, pensava, poderia impor-se em campo, ser zagueiro, ou mesmo revidar os tapas dos colegas que, já na adolescência, evoluíram para socos e pontapés. Mas o corpo franzino, raquítico, não lhe rendia sequer um único suspiro de mulher, quanto mais a chance de se fazer respeitar na base da porrada. Assim, abandonou os gramados e se dedicou somente aos estudos.

Com o passar dos anos, Junqueirinha transformou-se em Doutor Junqueira e ninguém mais lhe ousou dar sequer um peteleco, sob pena de ver o sol nascer quadrado. Porque quem não tem respeito, tem medo.

O pai de Doutor Junqueira acostumou-se com a idéia de ter o filho advogado solteiro, morando com ele e sua esposa, embora todos os outros mais novos já estivessem casados e lhes dando netos. Estranhava nunca ter visto o filho com nenhuma namorada, mas cansou de lhe pedir demonstrações de virilidade.

Até que um dia, com Doutor Junqueira juiz, caiu-lhe um caso nas mãos que renderia a chance de contar ao Seu Manoel o que nunca tinha conseguido dizer antes. Ao Seu Manoel e a todos os outros colegas da escola, que creditavam a falta de habilidade de Junqueirinha a um estranho gosto por roupas cor-de-rosa.

O caso é que um jogador de um time da capital paulista processava um dirigente de outro time por ter insinuado que era homossexual. Queria retratação pública, afinal a acusação tinha sido feita em um programa de audiência, embora pouca credibilidade. Então, Doutor Junqueira, com sua camisa cor-de-rosa por baixo da toga, resolveu aconselhar o atleta para poupar-lhe de todo o sofrimento que ele mesmo havia passado: "Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas forme seu time e inicie uma Federação". E continuou: "Melhor seria que ele abandonasse os gramados."

Pronto, o recado já estava dado. E se o Seu Manoel visse o final da sentença, não teria mais dúvidas sobre o filho: "Cada um na sua área, cada macaco no seu galho, cada galo em seu terreiro, cada rei em seu baralho. É assim que penso."

Seu Manoel, de descendência portuguesa, entendeu tudo errado e ficou feliz. A homofobia da sentença era a prova de macheza que ele tanto queria.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Do Movimento Fora Dualib

Afastamento definitivo de Dualib está apenas começando

Muito se comemorou a decisão do Conselho Deliberativo do Corinthians, que aprovou o afastamento do presidente Alberto Dualib e do vice Nesi Curi, no último dia 7 de agosto. Mas ainda há um longo caminho a percorrer -e cheio de burocracias- até que os dois possam ser definitivamente afastados do clube. E é importante que toda a Nação Corinthiana continue acompanhando de perto o que está acontecendo no clube e cobrando os envolvidos.

Foi formada uma comissão -pelos conselheiros Alexandre Husni, José Carlos de Mattos, Rogério Molica, Osmar Basile e José Percival Albano Jr.-, que deve investigar e analisar detalhadamente a administração Dualib. Esse grupo tem 60 dias para apresentar ao conselho os resultados da apuração (que serão somados às denúncias do Ministério Público), mesmo prazo que Dualib e Nesi têm para se defender.

Na próxima reunião do conselho -que deve acontecer, portanto, dentro de no máximo dois meses- é que será decidida a abertura ou não do processo de impeachment contra os dois cartolas corinthianos. Caso o conselho aprove a destituição de ambos, será convocada a Assembléia Geral, ou seja, o associado votará a favor ou contra a saída do presidente e do vice.

O início desse processo de afastamento definitivo já é uma grande conquista, mas a Nação Corinthiana precisa continuar, junto ao Movimento Fora Dualib, pressionando os conselheiros e comparecendo às manifestações. Temos que continuar lutando até que toda a diretoria ligada a Dualib saia, e pressionando para que todos renunciem a seus cargos, Dualib, Nesi, Clodomil Orsi e Wilson Bento.

Queremos a limpeza total do Corinthians, para que seja possível a instalação de uma gestão democrática, clara e honesta Nossa luta ainda não terminou! Até porque permanece incerto o destino do Corinthians depois da saída de Dualib e Nesi. Haverá novas eleições? Clodomil Orsi continua no poder até o fim desta gestão? Será formada uma comissão para administrar o clube?

Nada se sabe por enquanto, mas temos de permanecer atentos para que o Corinthians não caia, mais uma vez, nas mãos de pessoas erradas. Precisamos de tranqüilidade no clube e de novas diretrizes para que possamos recomeçar do zero.

Dualibabá

Para quem perdeu a entrevista do Dualib ao Esporte Espetacular, exibida no domingo passado, aí está:

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Fora, Dualib!

Quem foi que duvidou que um dia Dualib cairia? Eu não fui. Principalmente porque, como corinthiana desde o berço, entendo a força que tem essa torcida. Pois quando surgiu o “Movimento Fora Dualib” ficou claro que a ditadura do nefasto presidente do Timão estava no fim.

Então ontem, em 7 de agosto de 2007, Alberto Dualib e Nesi Curi foram afastados da presidência do Corinthians depois de 14 anos por uma esmagadora maioria de conselheiros do clube que outrora caminharam juntos com os dois senhores. Assim escreveu a história: presidente e vice, humilhados e traídos por antigos amigos.

Há quem vá dizer agora que Andrés é o verdadeiro herói do Corinthians e que só quando assumiu a oposição é que alguma coisa mudou. Outros irão afirmar que Dualib só se complicou porque o Ministério Público Federal concluiu a investigação e o denunciou por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro por conta da parceria com a MSI. Mas eu acredito é na gente. E a gente é quem nunca teve nenhum interesse em ser corinthiano, a não ser ver no estádio o jogador suar a camisa dentro de campo para honrar o nosso amor, mesmo que perca a partida.

A gente é quem nunca ganhou um tostão às custas da fé de outros, pelo contrário. A gente é quem só gasta dinheiro com camisa do clube que custa quase meio salário mínimo, ingresso, viagem, bandeira, boné, agasalho, água superfaturada e lanche ruim no estádio. A gente é quem, hoje em dia, agüenta desrespeito de todos os lados para no meio de tanto jogo ruim ser recompensado com um drible bonito, um gol de fora da área, ou um simples gol, que seja. Porque é a gente que gosta de futebol.

E foi só quando a gente se uniu é que as coisas realmente aconteceram. Poderia o Ministério Público Federal ainda não ter concluído as investigações ou o Andrés e sua turma não terem bandeado para o outro lado. Bastava a nação ter se revoltado, se indignado e se juntado para os dias do Dualib estarem contados. Do mesmo jeito que por conta da união dessa torcida é que o afastamento do Dualib será declarado definitivo daqui a uns dias.

Por trás dessa queda, que é um marco para o Corinthians e para o futebol, não está qualquer conselheiro, mas o sangue alvinegro fervido de uma porção de gente que acreditou e acredita que mudanças (para melhor) são possíveis. Eu digo sempre e repito: dá para mudar o mundo começando pelo futebol. É só querer.

PS: Parabéns para o Eduardo e a Débora, casal incansável que acredita
.

Voltando

Fiquei um tempo longe do Invendável e Imprestável, mas vou tentar voltar. E vou postar por aqui alguns textos que escrevi e que publiquei em outros lugares.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Para a paciência dos dois leitores que tenho nesse blog, peço desculpas pela falta de atualização. Mas seria impossível não comentar uma das medidas de segurança nos estádios, anunciadas pela Federação Paulista de Futebol ontem, 19/09.


Pobre Edinho

por Leonor Macedo

Edinho é o apelido que Edmílson ganhou dos primos quando ainda era pequenino e jogava bola pelos terrenos baldios de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, onde ainda mora. Época boa aquela, quando a preocupação maior era a chuva que cairia e transformaria o campo improvisado em um tremendo lamaçal. E o jogo rolava na chuva mesmo, tamanha a paixão daqueles meninos pelo futebol. Nem adiantava a mãe ralhar.

Hoje, Edinho tem 18 anos e mal dá tempo de jogar bola ou encontrar os amigos porque, além de estudar, o garoto trabalha como atendente de uma lojinha de R$ 1,99 para ajudar a família. Teve a infelicidade de nascer pobre, assim como boa parte da população paulistana. Ou brasileira. No emprego, ganha um salário mínimo, o que é muito bom para alguém da sua idade, considerando que ainda não terminou o ensino médio e o valor corresponde a renda de muito pai de família ali de São Miguel.

Metade do salário, ele entrega para a mãe, Dona Maria, costureira que deu a luz a cinco filhos. Edinho não é nem mais velho, nem o mais novo. “É o recheio”. O pai, Seu Francisco, é “pedreiro atualmente desempregado”, como se define sempre que perguntado. Como se “atualmente desempregado” também fizesse parte da profissão.

Com a outra metade, o menino compra roupas, tênis e vai ao estádio ver os jogos do Coringão, sua grande paixão. Desde que seu pai, corinthiano de coração, o levou ao estádio pela primeira vez, nunca mais deixou de ir. Devia ser toda aquela emoção, os cantos, a torcida, as bandeiras, a energia, os amigos que havia feito. Ou porque ali, o Edinho de São Miguel era um cara diferente. Não pensava no desemprego do pai, na saudade que sentia da infância, no trabalho do dia seguinte. Ou vai ver era porque ali o Edinho era igual. O fato é que sempre que ele entrava no estádio batia uma vontade de chorar.

E lá ia Edinho, toda quarta, quinta, sábado ou domingo ver o Timão no Pacaembu, no Morumbi, ou no Canindé. Não importava. De vez em quando, os jogos eram duas vezes por semana, mas o dinheiro dava. De arquibancada sempre dava, mas para ele era o melhor setor do estádio. Era lá que dava vontade de chorar.

Ficava junto com os Gaviões da Fiel, com a Camisa 12, com a Coringão Chopp, com a Estopim, com a Pavilhão, e com outros tantos corinthianos. E resolveu se filiar aos Gaviões da Fiel, pelos tantos amigos que tinha feito e que já eram da torcida.

Edinho, como todos os outros corinthianos, preferia que os jogos ocorressem no Pacaembu, mas no caso dele era mais do que uma questão de identidade. São Miguel Paulista é longe. Bem longe. E, apesar de longe, o Pacaembu é o lugar mais próximo para alguém que mora no extremo leste assistir a um jogo. Ainda assim, toda semana era a mesma via crucis: se o jogo era domingo, às 16h, Edinho dava um beijo na testa de Dona Maria antes do almoço, pegava uma lotação e demorava meia hora até a estação de trem. Depois perdia cerca de uma hora e dois minutos de São Miguel até a Barra Funda, passando pelo Brás para uma baldeação. E lá da Barra Funda seguia para o Pacaembu por mais ou menos meia hora a pé. Isso sem contar com o tempo de espera da condução porque de domingo a frota é sempre reduzida.

Mas quando o jogo ainda era de fim-de-semana, o corinthiano conseguia até comer alguma coisa antes de entrar no estádio. Problema mesmo Edinho tinha quando a partida era durante a semana. Aí ele fazia mágica: chegava em cima da hora no estádio, depois de pegar um trem apinhado de gente. E quando o jogo acabava, às 23h40, naquele horário que a transmissão não atrapalha a novela, ele corria feito louco para pegar um ônibus que o levasse até a estação Marechal Deodoro. De lá ele pegava o metrô até o Brás para não perder o último trem até São Miguel, que saía à meia noite. E o caminho do Pacaembu até o Brás tinha que ser percorrido em 20 minutos. Se alguém aí não acredita que isso é possível, o site da CPTM diz que dá.

E ele era um cara de sorte, porque quando chegava lá na estação em São Miguel, perto da uma da matina, e não tinha mais condução até sua casa, ele caminhava para os braços de Dona Maria e nunca aconteceu nada. Sempre escapou ileso também das brigas de torcidas, organizadas ou não, pelos trens. Menino de sorte e de bem.

Aí a Federação Paulista de Futebol, por causa dessas brigas, resolveu implantar umas medidas de segurança para 2007 e ferrou a vida do Edinho. Ele acha bom que alguma coisa seja feita pela diminuição da violência porque um menino da vila onde mora morreu e ele viu o sofrimento da mãe do moleque que nem gostava de futebol. Menino sem juízo, mas que tinha toda uma vida pela frente.

Pelo fim da violência, Edinho nem se importa em ter que se cadastrar de novo na frente do estádio e deixar sua foto, impressão digital, nome, telefone, função, número de RG e endereços, só porque é de uma torcida organizada. Afinal, ele fez isso em sua ficha de filiação lá nos Gaviões da Fiel. Ele não se importa, mesmo sendo uma medida discriminatória, que parte da premissa que todo torcedor organizado é um “sujeito torto”, pelo menos em potencial.

A única coisa que Edinho queria era continuar freqüentando os estádios e a Federação praticamente o proibiu. Porque se ele quiser ficar no espaço mais barato, destinado à torcida organizada, e assistir o jogo com seus amigos, terá de chegar uma hora antes da partida e só será liberado meia hora depois do fim do jogo. Meia noite e dez. Isso, dependendo da boa vontade da polícia militar, que não tem lá muito boa vontade com torcida organizada. Pode ser que Edinho fique até mais. Só que ele mora em São Miguel Paulista, lembra? E precisava chegar ao Brás antes da meia noite para ter o direito de gostar de futebol e conseguir dormir ao lado da Dona Maria, seus quatro irmãos e o Seu Francisco.

Além do que, para entrar no estádio, ele terá de chegar, no máximo, até às 20h45, o que quer dizer que o pobre coitado teria de sair lá da loja, que funciona em horário comercial, antes das 18h. Bem antes. Impossível o patrão do corinthiano aceitar, embora seja um cara justo e goste do funcionário. Mas lá em São Miguel tem uma porção de menino que aceita trabalhar até às 18h no lugar do Edinho, sem nem ganhar um salário mínimo inteiro. Tudo porque, para a Federação, quem é de torcida organizada não trabalha. Os 70 mil associados dos Gaviões da Fiel vivem do que?

Só que o pior de tudo é não entender no quê essa medida preconceituosa de enjaular torcedores e colocá-los no mesmo patamar que bandidos, tratá-los em regime especial, cercá-los com policiais e afastá-los do resto da população “mais endinheirada e formada” ajudará no fim da violência dentro de um estádio e fora dele. Mas aí o que acontece lá pela região de São Miguel já não é mais um problema da Federação Paulista de Futebol, neste conceito de cidadania meio torto. Problema é do Edinho, que, a não ser que aceite dormir na rua durante a semana (o que é pior para sua própria segurança e para brigas de torcidas) ou deixe de ver a partida com seus amigos em um setor mais caro, não poderá ir a estádio de futebol. Logo ele que é um garoto de bem.

Observação: o Edinho, nesse caso, representa qualquer torcedor organizado de futebol. Poderia ser um palmeirense, um são paulino, um santista, um ponte pretano, enfim. Mais um pobre que perde o seu direito a espaço, a lazer, a ir e vir. E os pobres desse país ficam cada vez mais sem direitos.