Em um prédio de classe média perdido no meio da fumaça da Avenida Pompéia não é muito fácil conhecer pessoas legais, que dirá fazer um amigo. Nem acho que sou uma delas.
Não me lembro como conheci o Jorge (leia-se Ror-rre ou Rorhe), senhor de seus 50 e poucos anos e sotaque carregado de érres e de ésses. Também nunca soube como o argentino veio parar no Brasil e na Vila Pompéia.
O que nos aproximou foi o futebol. Eu, corinthianíssima. Ele, torcedor apaixonado pelo Boca Juniors. Só que antes de qualquer final de Libertadores entre Boca e Palmeiras, o Jorge veio para o Brasil e se tornou palmeirense por aqui. Ele nem imaginava que alguns anos depois a torcida corinthiana adotaria o Boca e vice-versa.
Eu sempre dizia para o Jorge que aqui ele torcia para o time errado. Ele ria e ficava lá meio sem-graça, como se dissesse "agora é tarde" e (juro que não é o coração corinthiano que enxergava) tenho certeza que o Jorge queria mesmo é ter sido corinthiano. Até a mulher tirava um sarro por causa disso.
O Jorge nem morava mais aqui no prédio e meses antes de se mudar descobriu-se com um tumor no cérebro que lhe levou diversas vezes para internações e mesas de cirurgias. Ele escolheu passar seus últimos meses de vida em outro prédio, num bairro mais distante, na Freguesia do Ó, onde ninguém o conhecia. Talvez tenha sido por isso que ele se mudou: para que pudesse ser corinthiano sem que alguém soubesse que o Jorge já tinha sido palmeirense um dia.
Depois que ele se mudou, o encontrei só mais uma vez. Quase nem o reconheci fisicamente por conta dos efeitos dos remédios e do tratamento, mas no meio do Hortifruti ele gritou "Ei, corinthiana!", com seu portunhol inconfundível. Comprei para ele um São Jorge, protetor das famílias, do universo e dos corinthianos, mas não deu tempo de entregar.
Hoje recebemos a notícia de seu falecimento. Morreu no sábado, mas não deu para se despedir porque não teve velório, nem enterro. O Jorge doou seu corpo a uma universidade de medicina para estudos. Quem sabe descubram um coração corinthiano?
Amanhã tem missa e eu vou pisar de novo em uma igreja, coisa que não faço há bons anos. Vou levar para sua mulher e filhos a imagem do São Jorge que eu fiquei devendo para o argentino Jorge. Merecida, pela amizade e por ter me despertado um olhar muito mais carinhoso pelos nuestros hermanos. Muito, muito antes de Carlitos Tevez.
quarta-feira, 12 de julho de 2006
Quase corinthiano
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Leonor Macedo
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sexta-feira, 28 de abril de 2006
Estação Palmeiras-Barra Funda? O esquema agora é descer na Marechal e bater a pé.
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Leonor Macedo
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10:30 AM
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terça-feira, 21 de março de 2006
Um pedacinho do meu trabalho de conclusão de curso. Lucas Bataglin, hoje jornalista na Globo, chorou durante a entrevista. Choramos.
Lágrimas de palmeirense
Em 1976, a TV Cultura criou um telejornal voltado para a cidade de São Paulo que pretendia investir nas grandes reportagens. Era diário, mas explorava um ou dois fatos do dia com maior verticalidade. O telejornal foi batizado com o nome de “Hora da Notícia Reportagem”. Qualquer assunto era abordado dentro do telejornal com uma perspectiva investigativa, até mesmo o futebol.
Luis Carlos Bataglin, ou Lucas Bataglin como é conhecido, nunca foi jornalista esportivo. É jornalista e trabalhava como repórter no telejornal.
Bem no Campeonato Brasileiro, o desempenho do Corinthians causou uma comoção nos torcedores, que estavam sem ver a conquista de um título há 22 anos. Junto com a sua equipe, Bataglin sentiu que a semifinal do Brasileiro se tornaria um fenômeno e decidiu acompanhar de perto o momento.
A pauta não foi de Bataglin, nem mesmo corinthiano ele é. Mas o palmeirense foi escalado para registrar a viagem no ônibus número um dos Gaviões da Fiel, junto com o cinegrafista Nilo Motta e o operador de áudio.
Antes da caravana, o jornalista escolheu alguns nomes de companheiros de viagens e traçou quatro perfis dos torcedores aqui em São Paulo. “Uma das torcedoras era florista, o que é interessante porque o Corinthians tem aquela imagem popularesca, aquele preconceito contra corinthiano que é tudo gente de baixo nível e nós queríamos diversificar, ampliar o leque para mostrar a pluralidade que tem dentro de uma torcida organizada”, conta Batalgin. “Também escolhemos acompanhar um casal de Guarulhos que estava noivo e um ex-presidente dos Gaviões da Fiel, o Cláudio Simões.”
A perspectiva da reportagem não era acompanhar o torcedor e mostrar como se portava a torcida no estádio, mas qual é o simbolismo do futebol, de uma grande paixão como o Corinthians, para o ser humano, para o cidadão. Na pauta, tanto fazia se o Corinthians ganhasse, perdesse, empatasse. Nilo Motta, inclusive, manteve sua câmera de costas para o jogo o tempo todo.
E o repórter palmeirense entrou no clima alvinegro e torceu para o Corinthians: “Você acaba se envolvendo”, justifica Bataglin. “Vimos de tudo, até um cego assistindo o jogo.”
No meio da torcida corinthiana, o que o repórter mais encontrou foi a humildade. “Gente que veio do Nordeste, de regiões pobres e que se encontram na torcida do Corinthians. Parecia que na torcida essas pessoas se sentiam integradas e o futebol é algo que integra com energia positiva. Senti como era importante para aquele povo torcer para o Corinthians. Era um fator de agregação, de se sentir pertencendo à alguma coisa maior que você, onde você encontra um igual.”
Bataglin gosta de futebol e acompanha seu time. Nunca pensou em fazer parte de uma torcida organizada. “Não tinha preconceito algum em relação à torcida organizada. Respeito muito à torcida do Corinthians e ela sempre foi uma torcida arrepiante. Tenho muita admiração.”
A viagem marcou o jornalista. “Fiquei espantado com alguns personagens. Como a florista, mulher, classe média, trinta e poucos anos. Foge dos estereótipos criados dentro de uma torcida organizada. Isso foi surpreendente. A viagem foi bonita e emocionante porque a Via Dutra foi tomada por carros e ônibus com bandeiras do Corinthians. Parecia que estávamos indo ao Morumbi, mas eram 450 km.”
O repórter cinematográfico, Nilo Motta, conheceu uma corinthiana na viagem. Namorou, noivou e casou com ela.
Apesar de emocionante e surpreendente, não foi essa a vez que os Gaviões da Fiel mais arrepiaram Bataglin. Pai de um são-paulino, foi a um Corinthians e São Paulo acompanhar o filho, anos depois da reportagem de 1976. Com meia hora de jogo, o Corinthians perdia de 3 a 0.
Caía no Morumbi uma garoa fina e dois terços do estádio estava tomado de corinthianos. “Quando acabou o primeiro tempo, eu conversava com meu filho quando ouvimos uma movimentação da torcida corinthiana”. A Gaviões da Fiel se levantou e começou a cantar o hino do Corinthians. Logo, todos os outros milhares de corinthianos cantaram também.
A torcida do São Paulo assistiu atônita. O palmeirense Bataglin também. Emociona-se ao contar a história. “Gosto muito de meu time e jamais vou deixar de ser palmeirense, mas nunca vi algo igual. Nenhum outro clube do Brasil tem uma torcida como essa. Foi no dia em que o Corinthians perdeu de 3 a 0, tomando um baile, que eu mais me emocionei com a torcida do Corinthians. Eles cantaram como se dissessem: ‘Olha, estamos perdendo, mas somos corinthianos e estamos aqui’”.
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Leonor Macedo
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7:36 AM
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