O Painel da Folha de S. Paulo de hoje, 17 de agosto, traz uma notinha em que Romeu Tuma Jr. afirma que vai pedir uma CPI do futebol para investigar "lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, casos de pedofilia e envolvimento de torcidas uniformizadas com o crime organizado". Acho ótimo, porque, se provado que isso realmente existe, deve servir para moralizá-las. Mas não lacrá-las.
Na Polícia Civil, na Assembléia Legislativa e em outros lugares que Tuminha costuma freqüentar já foram descobertos e provados casos iguais e ainda piores do que esses que ele está pedindo investigação. Até em seu próprio partido, o PMDB, e no DEM de seu pai, antigo PFL.
Não que eu queira comparar as Organizadas com esses tipos de instituições. As torcidas são infinitamente mais inofensivas.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Outro alvo
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Leonor Macedo
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7:52 AM
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Categorias: torcida organizada
quarta-feira, 20 de setembro de 2006
Para a paciência dos dois leitores que tenho nesse blog, peço desculpas pela falta de atualização. Mas seria impossível não comentar uma das medidas de segurança nos estádios, anunciadas pela Federação Paulista de Futebol ontem, 19/09.
Pobre Edinho
por Leonor Macedo
Edinho é o apelido que Edmílson ganhou dos primos quando ainda era pequenino e jogava bola pelos terrenos baldios de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, onde ainda mora. Época boa aquela, quando a preocupação maior era a chuva que cairia e transformaria o campo improvisado em um tremendo lamaçal. E o jogo rolava na chuva mesmo, tamanha a paixão daqueles meninos pelo futebol. Nem adiantava a mãe ralhar.
Hoje, Edinho tem 18 anos e mal dá tempo de jogar bola ou encontrar os amigos porque, além de estudar, o garoto trabalha como atendente de uma lojinha de R$ 1,99 para ajudar a família. Teve a infelicidade de nascer pobre, assim como boa parte da população paulistana. Ou brasileira. No emprego, ganha um salário mínimo, o que é muito bom para alguém da sua idade, considerando que ainda não terminou o ensino médio e o valor corresponde a renda de muito pai de família ali de São Miguel.
Metade do salário, ele entrega para a mãe, Dona Maria, costureira que deu a luz a cinco filhos. Edinho não é nem mais velho, nem o mais novo. “É o recheio”. O pai, Seu Francisco, é “pedreiro atualmente desempregado”, como se define sempre que perguntado. Como se “atualmente desempregado” também fizesse parte da profissão.
Com a outra metade, o menino compra roupas, tênis e vai ao estádio ver os jogos do Coringão, sua grande paixão. Desde que seu pai, corinthiano de coração, o levou ao estádio pela primeira vez, nunca mais deixou de ir. Devia ser toda aquela emoção, os cantos, a torcida, as bandeiras, a energia, os amigos que havia feito. Ou porque ali, o Edinho de São Miguel era um cara diferente. Não pensava no desemprego do pai, na saudade que sentia da infância, no trabalho do dia seguinte. Ou vai ver era porque ali o Edinho era igual. O fato é que sempre que ele entrava no estádio batia uma vontade de chorar.
E lá ia Edinho, toda quarta, quinta, sábado ou domingo ver o Timão no Pacaembu, no Morumbi, ou no Canindé. Não importava. De vez em quando, os jogos eram duas vezes por semana, mas o dinheiro dava. De arquibancada sempre dava, mas para ele era o melhor setor do estádio. Era lá que dava vontade de chorar.
Ficava junto com os Gaviões da Fiel, com a Camisa 12, com a Coringão Chopp, com a Estopim, com a Pavilhão, e com outros tantos corinthianos. E resolveu se filiar aos Gaviões da Fiel, pelos tantos amigos que tinha feito e que já eram da torcida.
Edinho, como todos os outros corinthianos, preferia que os jogos ocorressem no Pacaembu, mas no caso dele era mais do que uma questão de identidade. São Miguel Paulista é longe. Bem longe. E, apesar de longe, o Pacaembu é o lugar mais próximo para alguém que mora no extremo leste assistir a um jogo. Ainda assim, toda semana era a mesma via crucis: se o jogo era domingo, às 16h, Edinho dava um beijo na testa de Dona Maria antes do almoço, pegava uma lotação e demorava meia hora até a estação de trem. Depois perdia cerca de uma hora e dois minutos de São Miguel até a Barra Funda, passando pelo Brás para uma baldeação. E lá da Barra Funda seguia para o Pacaembu por mais ou menos meia hora a pé. Isso sem contar com o tempo de espera da condução porque de domingo a frota é sempre reduzida.
Mas quando o jogo ainda era de fim-de-semana, o corinthiano conseguia até comer alguma coisa antes de entrar no estádio. Problema mesmo Edinho tinha quando a partida era durante a semana. Aí ele fazia mágica: chegava em cima da hora no estádio, depois de pegar um trem apinhado de gente. E quando o jogo acabava, às 23h40, naquele horário que a transmissão não atrapalha a novela, ele corria feito louco para pegar um ônibus que o levasse até a estação Marechal Deodoro. De lá ele pegava o metrô até o Brás para não perder o último trem até São Miguel, que saía à meia noite. E o caminho do Pacaembu até o Brás tinha que ser percorrido em 20 minutos. Se alguém aí não acredita que isso é possível, o site da CPTM diz que dá.
E ele era um cara de sorte, porque quando chegava lá na estação em São Miguel, perto da uma da matina, e não tinha mais condução até sua casa, ele caminhava para os braços de Dona Maria e nunca aconteceu nada. Sempre escapou ileso também das brigas de torcidas, organizadas ou não, pelos trens. Menino de sorte e de bem.
Aí a Federação Paulista de Futebol, por causa dessas brigas, resolveu implantar umas medidas de segurança para 2007 e ferrou a vida do Edinho. Ele acha bom que alguma coisa seja feita pela diminuição da violência porque um menino da vila onde mora morreu e ele viu o sofrimento da mãe do moleque que nem gostava de futebol. Menino sem juízo, mas que tinha toda uma vida pela frente.
Pelo fim da violência, Edinho nem se importa em ter que se cadastrar de novo na frente do estádio e deixar sua foto, impressão digital, nome, telefone, função, número de RG e endereços, só porque é de uma torcida organizada. Afinal, ele fez isso em sua ficha de filiação lá nos Gaviões da Fiel. Ele não se importa, mesmo sendo uma medida discriminatória, que parte da premissa que todo torcedor organizado é um “sujeito torto”, pelo menos em potencial.
A única coisa que Edinho queria era continuar freqüentando os estádios e a Federação praticamente o proibiu. Porque se ele quiser ficar no espaço mais barato, destinado à torcida organizada, e assistir o jogo com seus amigos, terá de chegar uma hora antes da partida e só será liberado meia hora depois do fim do jogo. Meia noite e dez. Isso, dependendo da boa vontade da polícia militar, que não tem lá muito boa vontade com torcida organizada. Pode ser que Edinho fique até mais. Só que ele mora em São Miguel Paulista, lembra? E precisava chegar ao Brás antes da meia noite para ter o direito de gostar de futebol e conseguir dormir ao lado da Dona Maria, seus quatro irmãos e o Seu Francisco.
Além do que, para entrar no estádio, ele terá de chegar, no máximo, até às 20h45, o que quer dizer que o pobre coitado teria de sair lá da loja, que funciona em horário comercial, antes das 18h. Bem antes. Impossível o patrão do corinthiano aceitar, embora seja um cara justo e goste do funcionário. Mas lá em São Miguel tem uma porção de menino que aceita trabalhar até às 18h no lugar do Edinho, sem nem ganhar um salário mínimo inteiro. Tudo porque, para a Federação, quem é de torcida organizada não trabalha. Os 70 mil associados dos Gaviões da Fiel vivem do que?
Só que o pior de tudo é não entender no quê essa medida preconceituosa de enjaular torcedores e colocá-los no mesmo patamar que bandidos, tratá-los em regime especial, cercá-los com policiais e afastá-los do resto da população “mais endinheirada e formada” ajudará no fim da violência dentro de um estádio e fora dele. Mas aí o que acontece lá pela região de São Miguel já não é mais um problema da Federação Paulista de Futebol, neste conceito de cidadania meio torto. Problema é do Edinho, que, a não ser que aceite dormir na rua durante a semana (o que é pior para sua própria segurança e para brigas de torcidas) ou deixe de ver a partida com seus amigos em um setor mais caro, não poderá ir a estádio de futebol. Logo ele que é um garoto de bem.
Observação: o Edinho, nesse caso, representa qualquer torcedor organizado de futebol. Poderia ser um palmeirense, um são paulino, um santista, um ponte pretano, enfim. Mais um pobre que perde o seu direito a espaço, a lazer, a ir e vir. E os pobres desse país ficam cada vez mais sem direitos.
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Leonor Macedo
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1:13 PM
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segunda-feira, 8 de maio de 2006
Jogo dos sete erros
Um posicionamento sobre quinta-feira, não só pelas cobranças, mas porque sou integrante de torcida organizada e cidadã. Chega com atraso, mas é assim que tem de ser feito: depois de ouvir muita gente, esfriar a cabeça, procurar saber, entender ação e reação, ou não entender.
Até onde vale falar que a quinta-feira para a Gaviões da Fiel começou pela manhã, quando se reuniu no Procon de São Paulo como integrante da Câmara Técnica de Desportos junto com a Polícia Militar, o Metrô, a Federação Paulista de Futebol, o Juizado Especial Criminal, a SPTrans, o Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, a CPTM, a Polícia Científica e outros órgãos do governo?
E que a reunião era justamente para falar sobre o não cumprimento do Estatuto do Torcedor e o como todos devem se comprometer com ele?
E que foi iniciativa da Gaviões da Fiel integrar a Câmara Técnica e participar de uma reunião por mês para ajudar na elaboração de soluções aos problemas que a maioria só aponta, aponta, aponta e nunca faz nada?
Deixa pra lá, assim como todo o trabalho de quem está realmente comprometido com a formação de uma massa que o Estado desova em qualquer lugar porque não está interessado nela. Falemos, então, do que todos querem saber: a noite de quinta-feira, no Pacaembu.
Jogo dos sete erros
Os oito ingressos que consegui comprar foram divididos entre os amigos que estão em todos os jogos comigo (Franz, Sid, Fabrício e Pedrão), e os amigos que me ligam não só em véspera de jogo para pedir ingresso (Júlio, Gabi e Alê). A única condição era que fôssemos de preto, ficássemos no meio dos Gaviões e cantássemos durante os 90 minutos músicas de incentivo ao Corinthians. Feito.
Cheguei cedo no Pacaembu, encontrei o pessoal e entrei no estádio, sem pegar fila ou enfrentar a muvuca que enfrento em quase todos os jogos, quando entro faltando 20 minutos para o jogo começar. Erros e acertos.
Nem participei da ação dos Gaviões contra cambistas, com o apoio do 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Na praça Charles Miller, dezenas de torcedores cercavam os cambistas, tiravam seus ingressos e distribuíam para o corinthiano que estava sem e queria ver seu time de perto. Isso porque não há nenhuma lei que impeça a ação dos cambistas.
Ocupei meu lugar e esperei uma hora e meia até o jogo começar. O estádio foi lotando e na medida em que o horário da partida se aproximava e o Pacaembu enchia era possível ouvir bombas disparadas do lado de fora. Tumulto igual ao jogo contra o Internacional, na antepenúltima rodada do Campeonato Brasileiro no ano passado. Tumulto igual ao jogo contra o Deportivo Cali, há algumas semanas no mesmo Pacaembu. Igual ao jogo contra o Tigres. Contra o Universidad Católica.
Tumulto cada vez mais freqüente, que coincide com a interrupção das conversas entre 2º Batalhão e torcidas organizadas (por iniciativa da Polícia Militar, diga-se de passagem) e da maior bagunça administrativa dos últimos tempos no Corinthians, responsável pela organização da partida.
Na minha frente, um menino mostrava orgulhoso o ingresso com o qual tinha entrado no estádio: Corinthians X São Paulo, no ano passado. Culpa de quem? Cerca de quatro pessoas se espremiam atrás de mim no degrau da arquibancada para conseguir ver o jogo. Ficou evidente que 33 mil ingressos foram vendidos, mas que havia mais do que 33 mil pessoas no estádio. As arquibancadas não conseguiam respirar, o tobogã muito menos e quem tinha pagado mais de R$ 50 reais na bilheteria por um ingresso de numerada ficou completamente amassado.
Então o jogo começou e o sonho de conquistar a Libertadores da América ficou mais próximo com um gol do Nilmar no início do primeiro tempo, anulado pelo juiz. Aos 38 minutos, o grito de gol foi legítimo quando o mesmo Nilmar balançou a rede e abriu o placar. E aí vem na cabeça aquele vizinho são-paulino que nunca te cumprimenta no elevador, mas já te zoou por não ter visto seu time conquistar um título sul-americano, e o porteiro palmeirense que antes do “bom dia” já te cobra uma conquista da Libertadores. O grito sai mais forte, o alívio é imediato.
O árbitro apitou o fim do primeiro tempo e nos demos conta de que faltavam apenas 45 minutos para que a manchete dos jornais no dia seguinte fosse: “Corinthians a poucos passos do título inédito”. Imprensa esportiva que nos lembra a cada edição do campeonato que nunca conquistamos. E a gente assume o trauma, como bem lembrou o Giorgetti, e compra o sonho.
Ainda no intervalo pensei que o frio amenizava a sede de quem não viu passar um só vendedor de água no local. Era impossível passar por ali. Impossível descer também em uma das duas pequenas lanchonetes com um ou dois atendentes sem perder metade do segundo tempo. Fiquei com sede.
O Corinthians voltou e deixou a vontade no vestiário. Nem a esperança de milhões de corinthianos, nem os altos salários a quem sequer estudou até o ensino médio foram suficientes para fazê-los jogar. Com exceção do Rubens Júnior que quis fazer história no Timão, mas sozinho ele não ia a lugar nenhum. Um, dois, três gols do River Plate e a sensação de que podia ter sido mais.
Foram-se a minha voz e o fôlego para as cantorias. E do Franz, do Júlio, da Gabi, da Alê, do Sid, do Pedrão, do Fabrício, e de cada um que estava presente naquele estádio. Catarse coletiva, interrompida por um menino que invadiu o campo e colocou o dedo na cara do Rafael Moura, do Coelho, do Tevez, não me lembro. Só me lembro de ter pensado “Fodeu”, porque quem estava lá sentiu o barril de pólvora preste a explodir.
Foi nessa hora que na cara das pessoas deu para ler o mau salário, a mulher que o traiu, o marido que te bate, o patrão que te humilha, o cambista que te cobra R$ 100 reais por um ingresso que custa R$ 15, as 10 horas de fila que enfrentou para conseguir estar ali, as dívidas que adquiriu pelo juízo ser menor que a paixão e por ter ido até a Argentina assistir o primeiro jogo, que o Corinthians também perdeu.
Como o meu emprego é bom, o salário é legal, eu folgo os fins-de-semana, meu filho é saudável, meus pais são sensacionais, meu namorado palmeirense não me bate, paguei R$ 15 reais pelo meu ingresso e não dormi em nenhuma fila para adquiri-lo, a derrota do Corinthians teve somente um peso de derrota. Nada que me fizesse descer as arquibancadas para enfrentar policial e tentar derrubar o alambrado com o objetivo de estapear cada um dos jogadores que não honra a camisa que visto com orgulho.
Pelo contrário, fiz o caminho inverso e subi a arquibancada, sinalizando aos amigos que fizessem a mesma coisa. Nem no alto era possível escapar das bombas e da pimenta, que temperou ainda mais o estádio. Os policiais, em muito menor número, acharam que a solução ideal era atirar bombas sem nenhum critério em quem estivesse usando a camiseta do Corinthians. Todo mundo era inimigo, em cima, embaixo, na frente, ao lado.
Diante disso, pulei a grade que separa as duas arquibancadas: a popular, onde ficam as torcidas organizadas, e a mais cara, onde ficam os que pagam um pouco mais, ou pela preferência ao melhor lugar do Pacaembu para se ver um jogo, ou por medo de pobre. Liguei para minha mãe e a tranqüilizei, embora fosse difícil porque ela acompanhava em casa tudo pelo rádio.
Para quem diz que os “marginais de torcida organizada” quebraram o Pacaembu pode ser um espanto tremendo saber que a reação de senhores, senhoras, mulheres e rapazes, nenhum com a camiseta da Gaviões da Fiel, Pavilhão 9, Coringão Chopp, Estopim ou da Camisa 12, era semelhante a reação dos torcedores que enfrentaram a polícia. Chutavam e arrebentavam as cadeiras laranjas, atirando no meio do gramado, atitude que chamou a polícia para aquele setor também.
Até a numerada reagiu com a violência que conhece, expulsando o ídolo Kia e seu comparsa Dualib da cativa, o que talvez me contradiga na teoria de que as pessoas reagem com violência quando são violentadas diariamente em todas as questões que envolvem suas vidas. Talvez o amor pelo Corinthians seja suficiente para esse tipo de reação, mas eu prefiro acreditar que não. Prefiro acreditar que a classe média também está com problemas.
Quando a polícia sentou o pau em quem nunca pensou em apanhar, lá na cadeira laranja, eu fiz o caminho contrário novamente e voltei para a arquibancada amarela, onde tudo estava mais controlado. Encontrei o Pulguinha chorando, enquanto um outro rapaz, também chorando, o alertava sobre um associado gravemente ferido na enfermaria. Fui com ele até lá e o cenário era de guerra: um menino praticamente sem nariz, pessoas fraturadas, desfiguradas por causa de bomba, de pancada, de tiro de borracha. Policiais e torcedores, um deitado do lado do outro.
Saí de lá embasbacada, com uma tremenda vontade de vomitar e uma sensação de que tinha tomado uma garrafa de vodca sem passar pela garganta. Deixei o estádio pela porta principal, exatamente por onde tinha entrado. Do meu lado esquerdo, toda a cavalaria da Tropa de Choque com suas espadas enferrujadas. Do meu lado direito, chuva de tiro de borracha. E bomba. Bomba por toda a praça até a Avenida Pacaembu. Não passei nem pela esquerda, nem pela direita. Fui pelo meio até encontrar a primeira escadaria do Pacaembu.
Subi ouvindo uma menina dizer que nunca mais ia ao estádio, muito menos assistiria a jogos do Corinthians para não dar ibope. Eu ainda nem tinha me dado conta de que o Corinthians estava eliminado da Libertadores. Andei até a rua onde o irmão da Alê parou o carro, achei o Corsinha branco, sentei e comecei a tremer. Nessa hora, nenhum amigo estava junto porque tínhamos nos perdido. Absolutamente todo mundo se perdeu de todo mundo. Luquinhas também teria se perdido, assim como dezenas de crianças choravam sem os pais no meio de toda aquela confusão.
Quando me dei conta de tudo o que tinha acontecido, comecei a chorar também e só fui parar na sexta-feira de noite. Não era a eliminação do Corinthians, nem o medo de nunca mais ver meu filho por causa de um jogo de futebol. Não era só isso. Era uma frustração, uma derrota pessoal de quem tem a pretensão de mudar algo que está errado por meio do futebol e não sai do lugar. De quem não deu nem dois passos a frente, mesmo com todo o esforço.
Apesar de compreender atitudes emocionais e irracionais, não apóio a ação da torcida corinthiana (e não só membros de torcida organizada), que fique claro. Primeiro porque não dava para colocar tanta gente em risco dentro do estádio. Crianças, idosos, pessoas que não tem essa vivência conflituosa no futebol e fora dele.
Era possível prever a reação da polícia militar que, a meu ver, poderia ter sido diferente. Não sou ingênua para apostar no diálogo, era impossível conversar ali. Mas ninguém nunca vai me convencer de que atirar bombas para cima, em qualquer direção, é uma atitude heróica e valente. Não é. Valentia, infelizmente, tem sido assistir jogo de futebol no Brasil quando a intenção é somente assistir o jogo.
Se eu pudesse optar por uma saída naquele momento seria deixar a invasão rolar. Já que o torcedor é tratado como gado e estava agindo como gado, deixa pastar. Não sem antes colocar todo mundo que estava ameaçado no vestiário e protegê-lo. Com paulada, pancada, cassetada, bomba, tiro de borracha. As pessoas pelo menos teriam para onde correr. Então me foi perguntado:
- Mas e os fotógrafos? O que aconteceria com os fotógrafos?
- Que fossem para o vestiário também.
- Se o fotógrafo do meu veículo não trouxesse nenhuma foto da briga ele seria demitido.
Está tudo errado, inclusive essas relações de trabalho.
Depois, é impossível apoiar porque todas as torcidas foram omissas em relação a parceria MSI/Corinthians. Como justificar essa insanidade temporária, se talvez isso fosse previsto? No dia do jogo, inclusive, saiu publicada no Estadão uma reportagem onde o Kia dizia que se o Corinthians perdesse a partida seria preciso um replanejamento. Até ele apostava, sabe-se lá de que forma, na derrota. Nós apostamos na vitória porque o nosso compromisso com o Timão é outro, embora eu tenha ouvido muita gente dizer que o Kia é corinthiano. A frustração da torcida com a derrota está proporcionalmente ligada ao que foi oferecido aos torcedores.
E como ser a favor da ação de quinta-feira quando se tem memória ou se conhece a história do nosso clube? Ficamos quase 23 anos na fila sem conquistar nenhum título e recebemos o nome de “fiel” porque a torcida continuava sempre lá, apoiando o Corinthians. Não dá para abandonar certos princípios. Fomos campeões brasileiros há menos de seis meses. Nos acostumamos com os títulos fáceis, aos montes, a qualquer custo. Com dinheiro sujo, que mancha a história do nosso time. Me admira quem foi a favor da parceria chamar de “bandido” quem resolveu enfrentar a polícia, derrubar alambrado e bater em jogador. O princípio é exatamente o mesmo: vale tudo para ser campeão.
Por fim, não dá para legitimar o que aconteceu na quinta-feira porque tenho um filho, uma mãe, um pai, a esperança de conseguir levar o Luquinhas no estádio em paz e fazê-lo se apaixonar pelo Corinthians assim como eu. Fazê-lo freqüentar uma organização popular como os Gaviões da Fiel, contestadora, com valores que aos poucos se perdem nesse caminho percorrido por toda a sociedade. Processo de perda que deve ser interrompido e que eu luto para isso, da minha maneira, com as minhas fraquezas e limitações humanas. De ser humana. E é isso que eu tinha para dizer.
NOTA: Na contagem geral, muito mais do que sete erros.
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Leonor Macedo
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12:12 PM
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sexta-feira, 5 de maio de 2006
Primeiro, a informação de que estou bem fisicamente, embora abalada e em choque. Uma derrota pessoal.
Depois, para dizer que nem sei se escreverei sobre o ocorrido, só sei que agora não dá para ser feito. Ajudando na contagem dos feridos. Um amigo perdeu o tênis durante a confusão. Um outro, também dos Gaviões, perdeu o olho esquerdo (não só a visão, mas o olho todo).
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Leonor Macedo
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8:53 AM
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quinta-feira, 20 de abril de 2006
Só para desabafo...
... é difícil ser mulher em torcida organizada. Diretoria, então, nem se fale. Um dia escrevo sobre isso.
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Leonor Macedo
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8:19 AM
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segunda-feira, 10 de abril de 2006
terça-feira, 21 de março de 2006
Um pedacinho do meu trabalho de conclusão de curso. Lucas Bataglin, hoje jornalista na Globo, chorou durante a entrevista. Choramos.
Lágrimas de palmeirense
Em 1976, a TV Cultura criou um telejornal voltado para a cidade de São Paulo que pretendia investir nas grandes reportagens. Era diário, mas explorava um ou dois fatos do dia com maior verticalidade. O telejornal foi batizado com o nome de “Hora da Notícia Reportagem”. Qualquer assunto era abordado dentro do telejornal com uma perspectiva investigativa, até mesmo o futebol.
Luis Carlos Bataglin, ou Lucas Bataglin como é conhecido, nunca foi jornalista esportivo. É jornalista e trabalhava como repórter no telejornal.
Bem no Campeonato Brasileiro, o desempenho do Corinthians causou uma comoção nos torcedores, que estavam sem ver a conquista de um título há 22 anos. Junto com a sua equipe, Bataglin sentiu que a semifinal do Brasileiro se tornaria um fenômeno e decidiu acompanhar de perto o momento.
A pauta não foi de Bataglin, nem mesmo corinthiano ele é. Mas o palmeirense foi escalado para registrar a viagem no ônibus número um dos Gaviões da Fiel, junto com o cinegrafista Nilo Motta e o operador de áudio.
Antes da caravana, o jornalista escolheu alguns nomes de companheiros de viagens e traçou quatro perfis dos torcedores aqui em São Paulo. “Uma das torcedoras era florista, o que é interessante porque o Corinthians tem aquela imagem popularesca, aquele preconceito contra corinthiano que é tudo gente de baixo nível e nós queríamos diversificar, ampliar o leque para mostrar a pluralidade que tem dentro de uma torcida organizada”, conta Batalgin. “Também escolhemos acompanhar um casal de Guarulhos que estava noivo e um ex-presidente dos Gaviões da Fiel, o Cláudio Simões.”
A perspectiva da reportagem não era acompanhar o torcedor e mostrar como se portava a torcida no estádio, mas qual é o simbolismo do futebol, de uma grande paixão como o Corinthians, para o ser humano, para o cidadão. Na pauta, tanto fazia se o Corinthians ganhasse, perdesse, empatasse. Nilo Motta, inclusive, manteve sua câmera de costas para o jogo o tempo todo.
E o repórter palmeirense entrou no clima alvinegro e torceu para o Corinthians: “Você acaba se envolvendo”, justifica Bataglin. “Vimos de tudo, até um cego assistindo o jogo.”
No meio da torcida corinthiana, o que o repórter mais encontrou foi a humildade. “Gente que veio do Nordeste, de regiões pobres e que se encontram na torcida do Corinthians. Parecia que na torcida essas pessoas se sentiam integradas e o futebol é algo que integra com energia positiva. Senti como era importante para aquele povo torcer para o Corinthians. Era um fator de agregação, de se sentir pertencendo à alguma coisa maior que você, onde você encontra um igual.”
Bataglin gosta de futebol e acompanha seu time. Nunca pensou em fazer parte de uma torcida organizada. “Não tinha preconceito algum em relação à torcida organizada. Respeito muito à torcida do Corinthians e ela sempre foi uma torcida arrepiante. Tenho muita admiração.”
A viagem marcou o jornalista. “Fiquei espantado com alguns personagens. Como a florista, mulher, classe média, trinta e poucos anos. Foge dos estereótipos criados dentro de uma torcida organizada. Isso foi surpreendente. A viagem foi bonita e emocionante porque a Via Dutra foi tomada por carros e ônibus com bandeiras do Corinthians. Parecia que estávamos indo ao Morumbi, mas eram 450 km.”
O repórter cinematográfico, Nilo Motta, conheceu uma corinthiana na viagem. Namorou, noivou e casou com ela.
Apesar de emocionante e surpreendente, não foi essa a vez que os Gaviões da Fiel mais arrepiaram Bataglin. Pai de um são-paulino, foi a um Corinthians e São Paulo acompanhar o filho, anos depois da reportagem de 1976. Com meia hora de jogo, o Corinthians perdia de 3 a 0.
Caía no Morumbi uma garoa fina e dois terços do estádio estava tomado de corinthianos. “Quando acabou o primeiro tempo, eu conversava com meu filho quando ouvimos uma movimentação da torcida corinthiana”. A Gaviões da Fiel se levantou e começou a cantar o hino do Corinthians. Logo, todos os outros milhares de corinthianos cantaram também.
A torcida do São Paulo assistiu atônita. O palmeirense Bataglin também. Emociona-se ao contar a história. “Gosto muito de meu time e jamais vou deixar de ser palmeirense, mas nunca vi algo igual. Nenhum outro clube do Brasil tem uma torcida como essa. Foi no dia em que o Corinthians perdeu de 3 a 0, tomando um baile, que eu mais me emocionei com a torcida do Corinthians. Eles cantaram como se dissessem: ‘Olha, estamos perdendo, mas somos corinthianos e estamos aqui’”.
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Leonor Macedo
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7:36 AM
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Gaviões até no Japão

Matéria com os Gaviões da revista japonesa Football LIFE. Na foto, o vice-presidente e amigo Pulguinha. Alguém da Fiel Japão pode mandar a matéria traduzida?
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Leonor Macedo
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5:25 AM
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quinta-feira, 2 de março de 2006
Sobre o fim deste carnaval para os Gaviões
A decisão tomada pela Gaviões da Fiel de não pertencer mais ao carnaval de São Paulo, realizado pela Liga das Escolas de Samba, e de abandonar a Uesp (União das Escolas e Samba Paulistanas) passa longe do “não brinco mais”.
Não é nenhuma vergonha fazer parte do Grupo de Acesso e vale lembrar que recentemente estivemos por lá. Depois de um acidente em 2004 envolvendo um de nossos carros alegóricos, fomos rebaixados e desfilamos no Acesso em 2005. Fizemos um desfile de alto nível e imbatível.
Assim subimos para o grupo das principais Escolas e nele estava a recém-especial Escola de Samba Mancha Verde, também proveniente de torcida organizada, como os Gaviões da Fiel. O Estatuto da Liga previa que se duas ou mais agremiações ligadas à torcidas organizadas estivessem no Grupo Especial teria de ser criado um dia a parte para que elas pudessem desfilar. Desse dia, sairia uma campeã que integraria o Grupo Especial no ano seguinte para a disputa do título. Confuso? Nem tanto. Poderíamos ser campeões só de dois em dois anos.
Desde o princípio, os Gaviões não aceitaram tal apartheid, muito menos as argumentações da Liga de que não tínhamos tradição em samba, por isso não poderíamos concorrer mais no Grupo Especial. Entramos na justiça e foi fácil ganhar porque:
- isso é discriminação (o mesmo que proibir um sambista de torcer nos estádios).
- grande parte das Escolas de Samba nasceu dos times nos campos de várzea.
- por mais de 15 anos integramos o Grupo Especial e fomos quatro vezes campeões.
E olha que nem precisamos usar os três motivos para que a Justiça nos concedesse liminar que devolvia um direito adquirido há muito tempo, depois de anos no carnaval de bloco e mais de dez títulos de campeão nessa condição. Qualquer coisa que fosse dita já faria o presidente da Liga, Alexandre Marcelino Ferreira, gaguejar por semanas para defender seu ponto de vista. Aliás, nem seu é.
Durante todo o ano, de liminar em punho, reunimos nossa comunidade (e é comunidade de verdade, onde 80% das pessoas que trabalham freqüenta a arquibancada no decorrer dos campeonatos e come feijoada na quadra de sábado) e trabalhamos em um desfile grandioso como sempre foi desde os tempos de Escola de Samba. Investimos tempo, dinheiro, esforço físico, empenho ao longo de meses para que o resultado pudesse ser mostrado em pouco mais de uma hora de desfile.
Para quem não sabe, os R$ 2 milhões de reais gastos no decorrer do carnaval é proveniente de: direito de transmissão da Rede Globo dado a todas as Escolas, Prefeitura de São Paulo também a todas as Escolas, mensalidade dos associados (temos 70 mil sócios), ensaios (quem já foi em um sabe quanta gente tem naquela quadra e como essas pessoas consomem), lojinha (somos uma torcida do Corinthians e qualquer coisa colocada à venda esgota em um dia. De fim-de-semana é preciso enfrentar uma fila de quase duas horas para comprar algo na loja) e venda de fantasias (sai caro para quem não pertence à comunidade. Eu desfilei de graça).
O dinheiro arrecadado é destinado única e exclusivamente para a compra de materiais de desfile e pagamento do pessoal que trabalha no Barracão e vive dessa produção. Feitas essas considerações (importantes para uma maior informação de quem anda bem desinformado e sai falando por aí), voltemos à retrospectiva.
Depois de um ano todo de trabalho, a duas semanas do desfile, a Liga resolveu desfazer um “mal entendido”: os Gaviões conseguiram na Justiça o direito de desfilar, mas não de pontuar. E depois de um dia todo de gargalhadas (porque só podia ser piada), voltamos aos tribunais e nosso advogado, sem suar, conseguiu que o Juiz entendesse diferente: era claro que poderíamos concorrer já que estávamos desfilando no Grupo Especial.
Na sexta-feira, dia 24, abrimos o carnaval de São Paulo e o que se viu foi um desfile bonito, animado, empolgante e luxuoso. A arquibancada compareceu em peso novamente (ingressos que esgotaram absurdamente rápido porque em qualquer dia que a Gaviões desfile certamente será o dia que encherá mais), cantou o samba, dançou, pulou.
Para quem estava na Avenida, como no meu caso, foi ainda mais emocionante e cabe um pequeno relato da experiência: do Dentinho ao Neto, da Assessora (que não gosta muito de carnaval) ao repórter da BBC, rolaram muitas lágrimas tamanha é a vontade que aquela comunidade tem de fazer algo bonito.
No final, um pequeno erro de cálculo assumido pela diretoria: muitos convidados e pouco tempo para que toda essa turma passasse pelo portão. Dois pontos a menos de atraso. Depois soubemos que perderíamos mais dois pontos por merchandising (aquele tipo de anúncio que alguns leitores por aqui conhecem bem), já que não tínhamos coberto o nome de uma marca de gerador. Cabe aqui dizer que em nenhum momento os Gaviões receberam qualquer quantia para divulgar o nome do anunciante por aí. Seria fácil provar que não se tratava de um merchandising.
E na apuração a grande surpresa: como uma espécie de retaliação para a nossa “rebeldia” de não aceitarmos o lugar escolhido pela Liga para que nossa Escola pudesse desfilar, foram apenas quatro notas 10, em 30 recebidas. O samba bem feito, as alegorias e as fantasias luxuosas, a bateria empolgante, nada disso tinha sido suficiente para os jurados que, inclusive, nem devem ter visto o desfile. Foram tomar uma ou outra ali na esquina (é carnaval, minha gente) e voltaram para apurar a Rosas de Ouro, escola seguinte.
Por causa dos erros, não esperávamos ser campeões. Mas em momento nenhum passou pela cabeça de toda aquela comunidade que seríamos rebaixados. Nem dos comentaristas da Globo isso passou porque a todo momento, durante a apuração, eles demonstravam estranheza com as notas recebidas. Ficou clara a bandalheira. Assalto televisionado.
Talvez não tenha passado pela cabeça de nossa comunidade, mas quem conviveu minimamente com a Liga podia esperar algo semelhante. Nós esperávamos, tanto que soltamos uma nota na quinta-feira dizendo o quanto a Gaviões confiava na isenção dos jurados diante de toda a nossa batalha judicial, desde maio de 2005 até então. Mas não foi o suficiente porque eram apenas palavras.
Quem é a Liga?
O meu primeiro contato direto com a Liga foi logo no começo da gestão do Pulguinha e do Tonhão, quando ocorreu a festa da posse do novo presidente, Alexandre Marcelino Ferreira. As diretorias das Escolas foram convidadas para o evento e lá fomos nós, com ternos e roupas alugadas porque o traje exigido era social completo. O que se viu foi uma verdadeira baixaria: o pobre Alexandre mal conseguiu falar porque quem manda ali não é ele. Até que o Sólon Tadeu, presidente da Vai-Vai, não agüentou mais as gaguejadas do coitado e decidiu mostrar quem realmente manda ali.
Metade do evento foi para discursar em favor do ex-presidente Robson, exatamente com essas palavras:
- O Robson roubava? Roubava! Mas agora a gente vai sentir falta dele.
E como futebol e samba quase nunca se separam, o Sólon também misturou tudo em seu discurso:
- É como o Farah. Ele roubava, mas agora que ele saiu todo mundo vai sentir falta dele.
Vi um Paulo Maluf do samba falar e falar por alguns bons minutos sobre um “rouba, mas faz”. A outra metade do discurso foi para agredir os Gaviões da Fiel. Ali, ele mostrou o que eu já tinha ouvido falar: os Gaviões incomodam absurdamente algumas grandes Escolas de Samba porque ela veio para tirar a hegemonia dessas agremiações. Principalmente da Vai-Vai.
Na ocasião, o conselho da Liga também foi apresentado e funciona quase igual às administrações de futebol. Com o microfone em punho, o Sólon apresentou um por um: “Esse é meu grande amigo tal, esse é meu primo fulano de tal, meu filho fulano de tal e tal (também presidente de Escola de Samba), esse é meu caseiro ciclano” e por aí foi. Lembrei dos 300 conselheiros nomeados pelo Dualib no Corinthians.
A noite também foi coroada pela fala do presidente do Anhembi que citou a importância de trazer cada vez mais turistas para dentro das Escolas. Como isso gerava dinheiro para a cidade e como gerava dinheiro e dinheiro e dinheiro para os fulanos e ciclanos. Naquele dia me lembro bem de ter pensado que estávamos no lugar errado e que nenhum dos Gaviões pertenciam a esse esquema.
Lá pelo fim da festa, enquanto eu e Pantchinho comíamos comidas chiques e tomávamos cerveja, saiu um reboliço. O Bart, na época diretor de carnaval, foi conversar com o Sólon, que retribuiu com uma bela cabeçada. Devíamos ter saído ali, naquele momento, mas adiamos essa discussão na quadra.
Depois, rolou tudo o que rolou. Desde que me enfiei por completo nos Gaviões da Fiel não concordo com nossa participação nesse carnaval da Liga por motivos óbvios: as questões da torcida e do Corinthians ficam sempre para segundo plano. É difícil protestar, falar, chiar, discutir qualquer assunto que não seja carnaval pela mais completa falta de tempo. Não é fácil colocar um carnaval na Avenida. Quando conheci a estrutura da Liga, alguns outros argumentos foram somados aos meus já feitos.
Como os Gaviões entraram no carnaval
Com o surgimento dos Gaviões da Fiel, em 1969, nasceu uma outra forma de torcer que levou para as arquibancadas instrumentos de percussão. Na época, os clubes pagavam fanfarras para animarem as torcidas, mas os Gaviões foram além: levaram os gritos, os cantos e um samba muito mais animado para os campos.
Anos depois veio a idéia de montar um bloco de carnaval. Nossa sede era ainda na Santa Ifigênia e o desfile ocorria na Avenida São João. Vez ou outra coincidia de um jogo do Corinthians ocorrer no mesmo dia dos desfiles e quando voltavam para a sede, os Gaviões passavam entre os foliões, antes dos blocos, e levantavam o público.
Foi idéia do dirigente da Vai-Vai, Ângelo Fasanella, que nos tornássemos bloco. A princípio, em 1975, montamos um bloco na própria Vai-Vai e já no ano seguinte conquistamos a nossa independência. Assim, formamos nosso próprio bloco de carnaval, que começou do samba e futebol e do futebol e do samba. A velha história do “ovo ou a galinha”.
Quando os Gaviões brincavam na Avenida São João, sem fantasia e sem pretensões, sem disputa e sem vaidade, sem ego, sem dinheiro, só pela folia, nem imaginavam que o carnaval dentro da nossa instituição tomaria essas proporções. Tomou, mas não era para tomar.
Por isso, a discussão é antiga dentro da sede de não mais participar desse carnaval, bem antes de sermos roubados descaradamente, diante de milhões de telespectadores. Isso só foi a gota d’água e a idéia já era amadurecida na entidade há algum tempo. Tem muito mais a cara dos Gaviões um desfile popular, na rua, sem dinheiro, sem vaidade, sem ego, sem Rede Globo (porque nenhuma revolução, mesmo a dos confetes e serpentinas, será televisionada). Porque a folia deve ser só compromissada com a nossa história e nossa comunidade.
Agora nós abrimos a discussão para as outras Escolas de Samba, blocos e para todo mundo que sonha em desfilar no Anhembi com a sua comunidade. Vale a pena? Depende daquilo que se quer. Para os Gaviões não vale mais a pena, mesmo que a Escola de Samba tenha segurado as pontas da torcida quando ela foi ameaçada de fechar as portas. Se tivermos de fechar por qualquer motivo, que a nossa existência seja galgada em bases mais sólidas e menos poluídas.
Escrito por
Leonor Macedo
às
10:25 AM
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2006
Azia II
A decisão da Liga de última hora (faltando menos de duas semanas para o desfile) de excluir os Gaviões do Grupo Especial, permitindo que a escola desfile, mas sem pontuar, só traz de volta a discussão: para que fazer parte dessa sujeirada toda?
Escrito por
Leonor Macedo
às
10:44 AM
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Categorias: torcida organizada
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006
Azia
Quando o assunto é a presença de Kia na quadra dos Gaviões da Fiel não dá para adotar o silêncio de Chauí. A postura tem de ser parecida com a da Heloísa Helena: cobra-se coerência ou pendura-se o chapéu.
A coerência, neste caso, é não aceitar Joorabchian rindo, tomando cerveja, “sambando” e sendo reverenciado por parte da bateria e parte da torcida. Parte da diretoria então, nem se fala. Nunca quis vê-lo envolvido com o Corinthians, muito menos com os Gaviões da Fiel.
Coerência então, neste caso, é continuar a trilhar os princípios dos Gaviões: torcida organizada com uma política clara de esquerda (e que venham as pedras de quem não concorda com isso porque nem abaixar eu vou), que luta por um outro sistema no futebol. Luta que acaba refletida nas organizações sociais. Simples na teoria e complexo na prática, mas há de se ter coerência.
Mais do que muita gente que critica ou criticará os Gaviões da Fiel por tal atitude, eu posso fazê-lo porque trabalho bastante para que o caminho seja outro. Sei bem como é difícil cuidar de uma organização com esses princípios, com mais de 70 mil associados vindos das classes C,D,E da população (corinthiano, maloqueiro e sofredor, graças a deus). Só que o caminho mais fácil nunca deve ser adotado porque não é ele que traz a tal felicidade – de espírito. E, neste caso, o caminho mais fácil é tomar cerveja com o Kia, entre sorrisos e samba de um carnaval que... Bem, deixemos para uma próxima postagem a discussão sobre carnaval X torcida organizada.
Pendurar o chapéu, então, significa aí não fazer parte dessa incoerência. Abrir mão dos sonhos, optar por um caminho ainda mais difícil e preservar os poucos e bons amigos, além da admiração quase inabalável por pessoas dos Gaviões da Fiel. Quase.
Pensando muito nisso e mal conseguindo dormir.
Escrito por
Leonor Macedo
às
7:19 AM
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