Bons companheiros
Em breve, Dualib e Kia soprarão as velinhas para comemorar dois anos de união entre o Corinthians e a MSI. O casamento, pelo menos é o que diz o contrato, deverá durar mais 8 anos, embora nem tudo sejam flores. Dizem por aí que o casal tem brigado desde a lua-de-mel e se esforça para manter as aparências.
Para conquistar Dualib, Kia mostrou uma poupança recheada e outros dotes. Nem precisou justificar como tinha conseguido tanto dinheiro com pouco mais de trinta anos (?) e nem apresentou seus documentos iranianos, ingleses, russos ou de qualquer outra nacionalidade.
No Brasil, Kia encontrou um terreno fértil para conseguir aquilo que queria. Com a baixa instrução do povo brasileiro, a nossa convivência pacífica com a corrupção e o nosso pouco costume de questionar o que parece incorreto, o iraniano viu no futebol uma larga oportunidade de multiplicar o seu dinheiro. Porque aqui no Brasil, o futebol se tornou uma porta aberta até para tornar o dinheiro legal quando é ilegal.
Assim, para a união entre ele e Dualib ser possível, Kia só precisaria prometer mundos e fundos. Mexeu justo nas feridas de cada corinthiano: a construção de um estádio e a conquista da Libertadores. Sonho antigo e promessas de novos tempos que fizeram boa parte da nação corinthiana fechar os olhos tanto para a fonte de renda da MSI quanto para o fato de Dualib ter quase arrendado o nosso patrimônio. O Kia, que nunca tinha entrado em um estádio, poderia opinar e ter a decisão final nas questões que permeassem o futebol do Corinthians.
Parece que esse é um dos motivos da briga entre o casal: na hora de assinar o contrato, Dualib esqueceu que sem as decisões do futebol sobraria a ele a administração da bocha, das piscinas e dos campeonatos de dominó disputado entre os fiéis associados do Parque São Jorge que resistiram à decadência das instalações do clube depois de tantos anos de uma péssima gestão. O outro motivo de briga é que Kia manda tanto na relação que decidiu cortar o cartão de crédito. Dualib gastava demais com os netos.
O fruto gerado por Dualib e Kia é um elenco que, a princípio, parecia promissor. Foi investido dinheiro em craques que dificilmente teríamos com o pouco crédito que Dualib, sozinho, tinha na praça. Mas Kia mimou tanto a criança que, com quase dois anos, ela não faz a sujeira no peniquinho. Ele coloca a culpa em Dualib, e este se defende alegando que o elenco não o obedece. Atletas contratados pela MSI só obedecem ao Kia e atletas surgidos no Corinthians só querem o colo do Dualib.
Com a desunião do grupo, a falta de pulso e o descaso dos pais, tanta birra e tanta manha, alguns sonhos começaram a ruir. Quem acreditava na Libertadores, deu adeus a ela em um episódio lamentável no Pacaembu. E o pesadelo não terminou por aí: o Corinthians, que é o que verdadeiramente importa para 25 milhões de torcedores, ficou em último plano para Kia e Dualib e segura a lanterna do Campeonato Brasileiro.
A questão é que quando a situação foge do controle, o Kia foge de um lado e o Dualib foge de outro. Um vai para a Europa, troca de nome e não quer nem saber de ligações vindas do Brasil. Outro assovia, olha para cima e constrói quadras de futebol society porque o futebol profissional não é de sua alçada.
Se depois de dois anos, o fruto dessa união é isso o que todo corinthiano está vendo e sentindo na pele, imagine depois de dez anos, quando a criança terá se tornado um adolescente-problema.
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
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Leonor Macedo
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10:49 AM
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quinta-feira, 11 de maio de 2006
Um texto antigo da Natália Viana, jornalista da revista Caros Amigos, que participou das investigações sobre a parceria Corinthians/MSI.
Onde fica a Georgia?
Foi a primeira vez que acompanhei realmente de perto o trabalho da imprensa grande, quando começamos a investigar a parceira misteriosa do Corinthians com a MSI, no começo deste ano. E confesso que fiquei bastante surpresa com a maneira como são checadas as informações que vêm de fora, especialmente se ela vem de países distantes sobre os quais temos a mais vaga idéia.
Logo em janeiro, quando começamos, vieram à tona ligações do representante da MSI, Kia Joorabchian, com empresários da ex-URSS de nomes impronunciáveis que têm contra si pesadas acusações de ligações com a máfia russa. Países como Uzbequistão, Chechênia, Quirguistão, começaram a fazer parte do nosso dia-a-dia, da maneira mais rocambolesca: viciados na cobertura dos países centrais, o que ficou muito claro é que a nossa imprensa não tem nenhuma idéia de como são aqueles outros países, quais as transações comerciais que seus grandes empresários realizam, quais as ligações políticas que os cercam.
Um dos países que mais sofreu nas mãos da nossa imprensa foi a Geórgia. Dia desses, aparece que um tal de Zaza Toidze, georgiano, teria emprestado 2 milhões de dólares para a MSI sanar certas dívidas do Corinthians. A única informação em inglês na Internet sobre o tal Zaza Toidze dizia que ele teria feito parte do Comitê Central Eleitoral daquele país, donde se concluiu que ele seria ligado à política. Vai daí que um grande jornal de São Paulo publicou assim, e assim a notícia se espalhou – dezenas de jornais menores, do Brasil e do exterior, principalmente a Argentina, não titubearam em descrever o homem como um político da Geórgia, “mesmo país de onde é Badri Patarkishivili”, outro empresário bem conhecido de Kia e acusado de financiar a parceria para lavar dinheiro.
A história foi rodando, ficando maior e com mais cara de verdade, embora calçada sobre essa única evidência. Causou uma grita por aqui, e lá do outro lado do mundo, na Geórgia, a vida correndo igual, seis horas adiante, ninguém tinha a menor idéia do que se passava. Vai daí que, conversando com diversos jornalistas georgianos, a equipe de Caros Amigos deparou com uma informação inesperada. Ninguém jamais ouvira falar de um tal Zaza Toidze, embora por aqui ele já fosse tido como político notório de lá. Nem no próprio Comitê Eleitoral Central sabiam dizer quem era ele. Mais: três repórteres vasculharam o país, a pedido de Caros Amigos, e encontraram um único Zaza Toidze, em Tibilisi, capital da Geórgia, engenheiro da companhia telefônica que, assustado, pediu pelamordedeus que desfizéssemos o mal-entendido.
É bem verdade que é difícil encontrar por ali alguém que fale inglês, e é bem verdade que a pressa atrapalha muito, mas daí a tomar como certa uma informação no mínimo bem esquisita – quem me disse isso foram jornalistas do próprio país – é um pouco de desleixo demais.
Na busca de sempre cobrir com afinco só o que acontece na Europa e nos Estados Unidos, acabamos perdendo histórias fantásticas, como a desse pobre engenheiro acusado de envolvimento com um time de futebol do outro lado do mundo sem nem ter idéia disso, ou da chamada “revolução” por que passou a Geórgia no final de 2003, quando a população foi às ruas pedir a anulação das eleições parlamentares, acusadas de fraudulentas; ou da pequena Adjara, uma região autônoma dentro do país controlada por um milionário que, quando viu canceladas as eleições por fraude, destruiu a ponte que ligava a capital, Batumi, de 200 mil habitantes, ao resto de país; e de onde uma estressada jornalista, da minha idade provavelmente, me liga dia desses chateada: “está difícil concluir as investigações porque a cidade está sem energia, está tudo um caos.
Esse apagão acontece há mais de 12 anos por aqui e ninguém resolve o problema”. Dramas que para a gente parecem sem importância porque vêm de gente que não fala a nossa língua e nem dita as regras da economia mundial. Seria engraçado, não fosse trágico, ter que ouvir, em cada vez que ligávamos para a Embratel pedindo para chamarem um número na Geórgia:
– Geórgia, aquele estado nos Estados Unidos, né? Não?!? Tem certeza??
Só que o mundo não fala uma só língua, e principalmente o capital já venceu essa pequena barreira: a transação bancária já é feita de maneira quase tranqüila, quase banal no esquema globalizado; já a informação pena um tanto mais para chegar direito. Se a gente não der uma espiadinha no que está mais além da cortina que cerra nossa visão nos países que “dão certo”, com um tanto de improvisação e paciência, vai ser muito, muito difícil descobrir o que o dinheiro georgiano – ou russo –, faz por aqui e, provada sua origem ilegal, conseguir detê-lo. Pena para o nosso Corinthians.
Escrito por
Leonor Macedo
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6:10 AM
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quarta-feira, 10 de maio de 2006
O bilionário que veio do frio
Matéria da Isto É Dinheiro
Em entrevista à DINHEIRO, o russo Boris Berezovski, um dos mais polêmicos magnatas do mundo, explica como pretende arrematar a Varig e por que está trazendo ao Brasil um fundo de investimentos de pelo menos US$ 1 bilhão
Por FÁBIO ALTMAN e BIÔ BARREIRA
Boris Berezovski, nascido em Moscou há 60 anos, formado em matemática, membro da Academia de Ciências da antiga União Soviética e colecionador das telas do austríaco Egon Schiele, é um dos mais polêmicos personagens da recente história econômica e política do mundo pós-comunismo. Tornou-se bilionário com o desmonte do socialismo na terra de Lênin e Stalin – diz ter um patrimônio de US$ 3 bilhões, embora as estimativas de mercado ponham o valor em um patamar dez vezes maior. Enriqueceu ao comprar empresas do Estado a preços aviltados. Começou com a aquisição e venda de carros Lada, entrou no universo do petróleo, arrematou a companhia aérea Aeroflot e parte de emissoras de rádio e televisão. Tornou-se aquilo que Vladimir Putin, o presidente russo, chama de "oligarca".
Há cinco anos, os dois romperam. Hoje são inimigos. Tão rapidamente como enriquecera, Berezovski passou a ser alvo de denúncias de crime, que vão de lavagem de dinheiro a incentivo das operações da Al Qaeda de Osama Bin Laden. Berezovski vive hoje com status de asilado político em Londres. Na semana passada esteve no Brasil, introduzido pelo cardiologista Renato Duprat, antigo dono do Unicor, ex-investidor do Santos Futebol Clube, a quem conheceu em um encontro da FIFA por meio de Alberto Duailib, presidente do Corinthians. Teve despachos com os executivos da Varig, da Embraer e da Petrobras. Marcou também audiência com o governador de São Paulo, Cláudio Lembo. Concedeu uma única entrevista exclusiva em sua passagem pelo Brasil.
Acompanhe:
O REAL INTERESSE PELO BRASIL
"A distância do Oriente Médio é uma vantagem brasileira. Nos próximos três ou quatro anos, o Brasil terá o crescimento mais espetacular no mundo"
DINHEIRO – O que o senhor faz no Brasil?
BORIS BEREZOVSKI – Negócios. Dedico-me a analisar o que acontece com a economia dos diferentes países do mundo em busca de oportunidades. Há dois critérios que tornam um país atraente para investir.
DINHEIRO – Quais são?
BEREZOVSKI – O primeiro deles é a estabilidade política. O segundo é o potencial de crescimento da economia. O Brasil atende plenamente essas duas condições. Os recursos naturais são imensos. Há profissionais intelectualmente muito bem preparados, tanto na iniciativa privada quanto no setor público.
DINHEIRO – O Brasil é, portanto, uma boa alternativa à China e Índia?
BEREZOVSKI – Há algum tempo, o banco de investimentos Goldman Sachs preparou um relatório, hoje célebre, referindo-se ao BRIC - as iniciais para Brasil, Rússia, Índia e China - , como centro de bons negócios. Mas não gostaria de traçar comparações. Esses países oferecem oportunidades fantásticas, têm imenso potencial de crescimento, mas o interessante é que nenhum deles depende dos outros. O Brasil não depende da Índia. O Brasil não depende da China, e vice-versa, apesar da globalização. São todos auto-suficientes.
DINHEIRO – Mas há algo que torne o Brasil especial como pólo de investimento?
BEREZOVSKI – Sim. Ele está bastante distante do Oriente Médio. Não depende da produção de petróleo daquela região do mundo, que continuará a ser instável e perigosa. Essa distância geográfica é uma vantagem brasileira. Nos próximos três ou quatro anos tenho convicção que o Brasil será a nação de crescimento mais espetacular no mundo.
DINHEIRO – Onde o senhor pretende investir no Brasil?
BEREZOVSKI – Petróleo, gás, fontes alternativas de energia, como o biodiesel, e transportes. Neste último setor há diversos caminhos: rodovias, ferrovias e transporte aéreo. Note que, mesmo com o atual crescimento moderado, para não dizer tímido, do Brasil, há um estrangulamento no campo de transportes. O governo brasileiro conhece perfeitamente esses gargalos, e vê com bons olhos o aporte financeiro em grande escala nessas áreas.
DINHEIRO – O que é investir em grande escala?
BEREZOVSKI – São bilhões de dólares. Mas é importante ressalvar que, em áreas estratégicas como as de transporte, é inevitável supor o amálgama de um grupo de empresas, o que necessariamente inclui também a participação do próprio Governo. Como se trata de investimento de longo prazo, a participação do Estado é crucial. Sei que o tempo de retorno é muito variável. As companhias de aviação permitem ganhos mais rápidos que rodovias, e estas mais velozes que ferrovias. Daí meu interesse pela Varig, que atravessa uma crise profunda no momento.
"O ponto central é que a Varig, em crise, não tem fluxo de caixa. Eu tenho."
OS PLANOS DE COMPRA DA VARIG
"A experiência com a privatização da Aeroflot soviética, nos anos 1990, pode ajudar na operação brasileira"
DINHEIRO – Como andam as negociações com a Varig?
BEREZOVSKI – Tive reuniões em São Paulo e Brasília com os dirigentes da companhia aérea. Deram-me números da empresa. O problema deles é de caráter urgente. Mas a pior coisa em um negócio é ter pressa para concretizá-lo.
[A Varig tem uma dívida estimada em R$ 7 bilhões. O governo brasileiro é credor de 55% deste total]
DINHEIRO – Qual é a proposta concreta do senhor para a Varig?
BEREZOVSKI – Estou apenas há dez dias dentro do assunto Varig. É tempo curto. Mas os profissionais que trabalham comigo investigam tudo com rapidez. Lembre-se que tenho experiência com recursos emergenciais para companhias de aviação. Quando houve o colapso da União Soviética, no início dos anos 1990, a crise da Aeroflot era imensa. Era preciso reestruturá-la. Em três anos, sem que fosse desembolsado dinheiro do governo russo, conseguimos sanear a Aeroflot.
[Em 1994, Berezovski adquiriu cerca de 20% das ações da Aeroflot, em parceria com funcionários da empresa. O governo russo manteve controle de 51%, sem onerar o Estado]
DINHEIRO – Existe a possibilidade de dividir a Varig em dois blocos distintos – um totalmente saneado e o outro, com passivo a pagar. Um grupo seria dedicado aos vôos e operações domésticas. O outro, trataria de negócios e rotas internacionais. Neste cenário, o que o senhor pretende fazer?
BEREZOVSKI – O mercado doméstico brasileiro tem enorme potencial. Faz sentido, sim, dividir a empresa em duas partes. O ponto central, na minha opinião, é que a Varig não tem fluxo de caixa.
DINHEIRO – O senhor tem esse fluxo de caixa?
BEREZOVSKI – O problema não é saber se tenho dinheiro ou não, porque evidentemente tenho. [Berezovski ri]. A questão é saber que risco eu correria trazendo o dinheiro para o Brasil. Por isso preciso entender o que pode acontecer em um prazo de três ou cinco anos, se puser dinheiro agora, como pretendo fazer. Fundos de investimento já estão na operação da VarigLog. Conversei com eles, detalhadamente, para ter uma idéia do tipo de resultados que poderei oferecer aos parceiros de investimento.
[A VarigLog foi comprada pela Volo do Brasil - uma sociedade criada para atuar no segmento da logística de transportes. A Volo do Brasil é resultado de uma associação entre os empresários brasileiros Marco Antonio Audi, Marcos Haftel e Luis Eduardo Gallo com o fundo de investimentos norte-americano MatlinPatterson. A Volo do Brasil detém 95% do capital votante da VarigLog, empresa que possui mais de 47% do mercado doméstico e de quase 32% do mercado internacional de carga.]
DINHEIRO – O senhor tem contato com representantes do Governo brasileiro?
BEREZOVSKI – Nesta primeira fase tenho conversado com os responsáveis pela gestão da Varig. É delicado falar agora em ajuda do Governo, por isso a solução está na iniciativa privada. Sei que qualquer participação do Estado poderia cheirar a nacionalização, mas creio, sinceramente, que em uma empresa vital como a Varig é fundamental algum apoio público. Sei que as leis no Brasil engessam as possibilidades de ação do Governo, mas trata-se de área estratégica e de solução imediata.
DINHEIRO – Qual é o risco caso as decisões não forem ágeis?
BEREZOVSKI – Perder o direito de licença de operação em rotas internacionais, perigo real e imediato. Há semelhança com o caso da Aeroflot. Quando assumimos o comando da companhia tivemos que comprar aeronaves da Boeing, o que produziu muita controvérsia na época. Achavam que seria ruim para a indústria aeronáutica russa. Mas era fundamental agir rápido, porque qualquer rota perdida é imediatamente tomada por concorrentes.
DINHEIRO – Qual foi o erro da Varig?
BEREZOVSKI – É um exemplo típico das empresas que não se guiam pela economia de mercado. A Varig é dirigida pelos próprios funcionários, por meio da Fundação. Basta comparar a crise profunda pela qual ela passa diante do crescimento de concorrentes como a TAM e a Gol. Quando você tem os próprios funcionários no comando da gestão há um conflito de interesses. Os funcionários querem lucro em curto prazo – os investidores, ao contrário, sabem que é preciso paciência, de modo a capitalizar a empresa no futuro. A chave de tudo é saber o quão eficaz pode ser o novo proprietário da Varig.
O FUNDO DE INVESTIMENTOS DE US$ 1 BILHÃO
"É apenas o início do jogo. Com o tempo, pode ser muito mais, porque dinheiro não tem nacionalidade"
DINHEIRO – O senhor está trazendo um fundo de investimentos ao Brasil?
BEREZOVSKI – Em primeiro lugar, é preciso dizer que o mercado financeiro no Brasil é muito interessante.
DINHEIRO – Por que?
BEREZOVSKI – A regulamentação dos investimentos estrangeiros no Brasil é favorável, muito favorável. Paga-se juros de 15% sem impostos para o dinheiro que vem de fora. Levando-se em consideração que a inflação brasileira é de pouco mais de 4%, temos 10% a 11% sem fazer força. É atraente, porque são papéis do governo. Mas, por outro lado, creio que essa postura pode ser prejudicial à economia do Brasil, porque leva a um patamar de endividamento muito alto. É um risco adicional, embora seja fantástico a curto prazo. Se investir US$ 1 bilhão, dentro de um ano terei US$ 100 milhões de lucro, no mínimo.
DINHEIRO – É ótima aplicação...
BEREZOVSKI – Sim, sim. Mas não entendo o propósito do Governo. Seria mais adequado atrair investidores para o crescimento industrial e não apenas para o mercado financeiro. O crescimento é incrível. Antes desta legislação havia US$ 50 milhões de capital estrangeiro no mercado – em dois meses aumentou para US$ 3 bilhões. Não é montante que afete a economia do Brasil, mas quando chegar a US$ 300 bilhões, aí sim será outra história.
DINHEIRO – Como o senhor pretende fazer parte deste mercado? Qual será o aporte inicial?
BEREZOVSKI – De US$ 1 bilhão. Apenas para começar. É o início do jogo. Pode aumentar, porque dinheiro não tem nacionalidade. O interessante para mim é entrar em um novo país, com novos parceiros. Aqui poderemos trabalhar em diversos setores de investimento, inclusive o de créditos a pequenas
empresas, por exemplo.
DINHEIRO – Este aporte de US$ 1 bilhão é muito diante da sua riqueza ?
BEREZOVSKI – Existem várias maneiras de estimar o patrimônio de alguém, mas se pensarmos nos ativos que possuo, diria que minha riqueza é de US$ 3 bilhões. Estou, portanto, preparado para investir uma parte disso no Brasil. Mas quero compartilhar o risco com outros parceiros. Repito: o dinheiro não tem nacionalidade, mas os investidores têm.
DINHEIRO – Como assim?
BEREZOVSKI – Um investidor russo costuma correr mais riscos que um investidor americano. Isso explica o sucesso dos negócios da Rússia na última década diante do tímido crescimento nos Estados Unidos. Somos mais tolerantes ao risco. Talvez porque tenhamos fome maior por negócios.
A VERDADE SOBRE O CORINTHIANS
"O coração dos investimentos em futebol deve ser a construção de estádios para a Copa de 2014. É o que me interessa"
DINHEIRO – Falemos de futebol...
BEREZOVSKI – Sei muito bem de todas as especulações ao redor da minha participação no Corinthians...
[O presidente do Corinthians, Alberto Duailib, já disse que a empresa MSI, de Kia Joorabchian, principal investidor do Corinthians, tem dinheiro de Boris Berezovski]
DINHEIRO – O senhor controla o Corinthians?
BEREZOVSKI – Não tenho nada a ver com o Corinthians. Mas ajudei a localizar investidores internacionais para o clube. A origem da boataria é evidente: Kia é grande amigo meu. Mas não tenho negócios com ele ou com a MSI.
DINHEIRO – O senhor ajudou, então, a trazer o Kia ao Corinthians...
BEREZOVSKI – Não. Ajudei o Kia a descobrir oportunidades de investimento.
DINHEIRO – Há espaço para investir no futebol brasileiro?
BEREZOVSKI – Muito, muito. O coração destes investimentos devem ser estádios modernos como os da Europa. É o que me interessa. Se o Brasil pensa em organizar a Copa do Mundo de 2014, é preciso ter novas instalações. Grandes clubes da Inglaterra, como o Manchester e o Chelsea, foram capitalizados, na ordem de US$ 1 bilhão cada um deles. O Real Madrid fez o mesmo. No Brasil, os clubes não contam capital, e sim dívidas. Eles precisam ser administrados como empresas, por executivos, e não por diretores. O Brasil tem que parar de vender jogadores. Deve começar a vender o futebol, o espetáculo. Posso dizer que os times brasileiros comportam-se operacionalmente como a Varig.
DINHEIRO – O primeiro clube com este formato "capitalizado" será o Corinthians?
BEREZOVSKI – Não podemos escolher apenas um clube. Sei que o futebol, no Brasil, é tão sensível como o petróleo na Rússia. Haverá controvérsia, mas faz parte do jogo.
"Vladimir Putin caminha para voltar aos tempos do socialismo soviético"
AS ACUSAÇÕES FEITAS POR VLADIMIR PUTIN
"Nenhuma das denúncias foi jamais provada. Caí em desgraça porque não
concordei com o modo dele governar"
DINHEIRO – Basta uma simples busca no Google para constatar que as acusações contra o senhor proliferam. São inúmeras e fortes. Gostaria de verificá-las, uma a uma. A primeira: o senhor é acusado de lavagem de dinheiro. É verdade?
BEREZOVSKI – Quero começar pelo final. Nenhuma dessas acusações foi jamais provada, na Rússia ou em qualquer outro país do mundo. É verdade que o governo russo abriu vários processos contra mim, mas ganhei todos na Justiça. Não há provas de que tenha feito operações contra a lei. Depois que o presidente Vladimir Putin chegou ao poder, caí em desgraça. Não concordei com o modo do Putin governar. Quando fui eleito deputado discordei ideologicamente dele. Entreguei meu mandato, perdi minha imunidade parlamentar. Por isso tive que abandonar a Rússia. Seria perseguido. Houve, já na Inglaterra, onde moro, um pedido de extradição. Depois de dois anos e meio de processo, a decisão foi a meu favor. Tenho agora status de asilado político. Venho ao Brasil de coração aberto, seguro, calmo, não como homem procurado pela polícia.
"A associação com Bin Laden é invenção. Não é fácil lutar contra o Estado"
DINHEIRO – Outra acusação. O senhor teria financiado organizações islâmicas extremistas na Chechênia – organizações estas aliadas da Al Qaeda de Osama Bin Laden. Procede?
BEREZOVSKI – É uma história inventada. Mas quero comentá-la. Em 1996 e 1997, era vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia. Fui um dos nomes chaves a interromper a chamada primeira guerra da Chechênia. Havia grupos poderosos na Rússia, como a FSB, a antiga KGB, e alguns militares que não aceitavam a idéia de paz. Na Chechênia, por outro lado, havia grupos extremistas islâmicos que também não tinham interesse na paz. Com a eleição de Putin, iniciaram uma nova guerra – e, claro, tentaram destruir a imagem de pessoas que trabalhavam pela paz, como eu, me associando a Bin Laden. Nunca é fácil lutar contra a força do Estado.
DINHEIRO – O senhor foi o mandante de assassinato do âncora da ORT, emissora em processo de privatização?
BEREZOVSKI – É história muito conhecida e também falsa. É verdade que, quando meu grupo assumiu 49% das ações da ORT, nós escolhemos os gerentes. Eu nomeei o âncora, Vlad Listiev. Ele foi assassinado, mas pertencia ao meu grupo. Por que motivo mandaria matá-lo? É mentira, mais uma mentira.
DINHEIRO – O senhor costuma dizer que elas foram criadas pelo presidente Vladimir Putin. Qual é a intenção dele?
BEREZOVSKI – Somos adversários políticos. Putin acha que é necessário centralizar o governo. Ele caminha para voltar aos tempos do socialismo soviético. Sou um liberal extremista, creio na democracia, e não poderia concordar com Putin. Ele afastou os empresários do funcionamento econômico da Rússia. Foi hipócrita. Criou falsas polêmicas.
DINHEIRO – A Rússia é uma democracia?
BEREZOVSKI – Fui o primeiro a alertar que a Rússia estava retrocedendo da democracia à ditadura. Putin rompeu com quase todas as estruturas democráticas. Não há mais emissora de televisão independente. As cortes de justiça são controladas pelo Kremlin. Ele cancelou as eleições para governadores. São fatos, são fatos.
A UNIÃO SOVIÉTICA E A RÚSSIA CAPITALISTA
"O padrão de vida das pessoas hoje é pior do que no tempo do socialismo"
DINHEIRO – O que representaram a glasnost e a perestroika de Gorbatchóv?
BEREZOVSKI – Sou um típico "homus sovietucus", porque nasci na Rússia e passei 25 anos de minha vida dedicado à matemática. Quando Gorbatchóv apresentou a glasnost e a perestroika, apoiei imediatamente. Era o caminho para a democracia, única saída para sermos respeitados internacionalmente. Por isso também fiquei do lado de Boris Ieltsin quando ele se opôs ao golpe de Estado, em 1991.
DINHEIRO – Vive-se melhor hoje na Rússia ou no tempo da União Soviética?
BEREZOVSKI – Boa pergunta...O padrão de vida hoje é pior do que na era comunista. Há pouco tempo dei uma palestra na London School of Economics. Um estudante perguntou assim: "você diz que a democracia era a melhor saída para a Rússia, mas afirma que hoje o estilo de vida é mais baixo que no tempo da União Soviética... como conciliar isso?" É difícil. A economia de mercado ainda é a melhor saída. Se não houvesse concorrência externa, se a União Soviética fosse um país isolado do planeta, ela ainda talvez sobrevivesse. Mas o mundo é globalizado, e não se pode construir o Muro de Berlim uma outra vez.
Escrito por
Leonor Macedo
às
8:26 AM
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006
Azia
Quando o assunto é a presença de Kia na quadra dos Gaviões da Fiel não dá para adotar o silêncio de Chauí. A postura tem de ser parecida com a da Heloísa Helena: cobra-se coerência ou pendura-se o chapéu.
A coerência, neste caso, é não aceitar Joorabchian rindo, tomando cerveja, “sambando” e sendo reverenciado por parte da bateria e parte da torcida. Parte da diretoria então, nem se fala. Nunca quis vê-lo envolvido com o Corinthians, muito menos com os Gaviões da Fiel.
Coerência então, neste caso, é continuar a trilhar os princípios dos Gaviões: torcida organizada com uma política clara de esquerda (e que venham as pedras de quem não concorda com isso porque nem abaixar eu vou), que luta por um outro sistema no futebol. Luta que acaba refletida nas organizações sociais. Simples na teoria e complexo na prática, mas há de se ter coerência.
Mais do que muita gente que critica ou criticará os Gaviões da Fiel por tal atitude, eu posso fazê-lo porque trabalho bastante para que o caminho seja outro. Sei bem como é difícil cuidar de uma organização com esses princípios, com mais de 70 mil associados vindos das classes C,D,E da população (corinthiano, maloqueiro e sofredor, graças a deus). Só que o caminho mais fácil nunca deve ser adotado porque não é ele que traz a tal felicidade – de espírito. E, neste caso, o caminho mais fácil é tomar cerveja com o Kia, entre sorrisos e samba de um carnaval que... Bem, deixemos para uma próxima postagem a discussão sobre carnaval X torcida organizada.
Pendurar o chapéu, então, significa aí não fazer parte dessa incoerência. Abrir mão dos sonhos, optar por um caminho ainda mais difícil e preservar os poucos e bons amigos, além da admiração quase inabalável por pessoas dos Gaviões da Fiel. Quase.
Pensando muito nisso e mal conseguindo dormir.
Escrito por
Leonor Macedo
às
7:19 AM
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