sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Alma y el corazon

Xeneizinho no jogo. Reparem na neblina


Diário de viagem – Quinta-feira – Jogo do Boca

Boa parte dos corinthianos que eu conheço simpatiza com o Boca Juniors muito antes do Tevez chegar ao Coringão. Seja pelo gosto ao futebol raçudo, suado e sofrido; pela identificação com a postura da torcida; pela conquista do título da Libertadores em cima do parmerinha; pelo ódio eterno ao River Plate. A vinda do Tevez ao Corinthians só aumentou a reciprocidade do carinho.

Sou apaixonada por ver jogo em estádio de futebol desde pequena e penso que se o bate-bola fosse restrito a tela da televisão o meu amor pelo Corinthians não seria assim tão grande. Tem muito a ver com a torcida, a troca de energia, a alegria, a tristeza, com estar presente, gritar, se fazer ouvida e ouvir, se sentir viva.

Por esse motivo ir até Buenos Aires e não ver um jogo do Boca é quase impensável para todo mundo, corinthiano ou não, que gosta de ver uma partida en la cancha. No começo, hesitei pelo preço e agradeço ao Daniel por não ter me deixado desistir. Pobre não gasta $160 dinheiros assim tão fácil, mesmo se os dinheiros forem pesos argentinos. Mas depois de ir posso dizer com a toda a convicção do mundo: pagaria o preço que fosse.

Uma entrada da partida entre Cúcuta e Boca Juniors era ultra-disputada pelos torcedores e nas bilheterias não era mais possível comprá-la. Semifinal da Taça Libertadores da América e o Boca precisava vencer por, pelo menos, 2 a 0, porque tinha perdido o primeiro jogo por 3 a 1.


Pior profissão do mundo: catador de papel na Bombonera

O acesso às arquibancadas então era quase impossível porque elas não são vendidas para não associados ao clube. Por isso, compramos as entradas em um esquema para turista, conforme citado na postagem anterior. No horário combinado, chegamos ao albergue e colocamos mais uma porção de agasalhos. A neblina e o frio eram de cortar o rosto.

Daniel implicou com a camiseta do Corinthians:

- É muito perigoso ir com roupa de outro time, Léla. Eles vão te bater e em seguida te matar.

Ele já tinha ido a uma partida entre o Nueva Chicago e o Boca na Bombonera e eu resolvi seguir seu conselho porque realmente não queria sair com escoriações de lá.

Fomos para a porta do albergue e encontramos mais duas pessoas que iriam conosco ao jogo: um era colombiano, torcedor do América de Cali, outro era de Mossoró, torcedor do Mossoró Esporte Clube. O jogo estava marcado às 19h e o ônibus passaria para nos apanhar as 17h30.

- Pode beber cerveja na calçada de Buenos Aires? – perguntou o colombiano.

Eu não entendi muito bem a pergunta, visto que aqui no Brasil é possível até morar em uma calçada, mas parece que na Colômbia quem bebe em espaços públicos pode ser confundido com alguém das FARC. Os homens foram comprar cerveja em um Kiosco (aqui, mais conhecidos como quiosques) e eu fiquei esperando o ônibus.

Não me lembro bem a marca, mas era uma boa cerveja e custava $4 pesos. Um litro também e uma para cada um. Assim que eles abriram as garrafas, chegou o ônibus.

- Não pode entrar bebendo no veículo – disse um dos organizadores.
- Ah, ninguém aqui vai jogar fora as cervejas.
- Tudo bem.

E fomos levados até um ônibus escolar caindo aos pedaços que já estava lotado de turistas de outros albergues que também iam ao jogo. Quase todo mundo devia ter entre 18 e 20 anos. Esse talvez tenha sido o único momento que quis ser argentina: para me diferenciar daquela molecada do intercâmbio que nunca tinha ido a um estádio de futebol e ia pela primeira vez de ônibus escolar. Senti vergonha.

Os turistas eram de lugares variados do mundo e conversavam em diversas línguas. Quando nos aproximávamos da Bombonera, a turma do fundão do bumba começou a entoar um:

- U.S.A.! U.S.A.! U.S.A.!

E eu coloquei touca e óculos escuros porque não queria ser reconhecida por ali, embora ninguém me conhecesse na Argentina.

Entramos no estádio e quando olhei para o gramado quase chorei. Não era possível ver absolutamente nada por causa da neblina. Tudo branco. Mal se via os refletores, nem pensar em ver La Doce na arquibancada da frente, atrás do outro gol. "Não vai ter jogo", pensei.

- Não acredito que pagamos tudo isso para não ver nada! – lamentou o Daniel.

A aquibancada já estava quase toda tomada. Nos afastamos da juventude u.s.a., eu, Dani, Mossoró e Cali, e fomos sentar bem longe de todos eles. Sentar é modo de dizer. Os degraus dos estádios daqui são bastante largos, suficientes para espremer cinco pessoas, uma na frente da outra, como os nossos organizadores estão acostumados a fazer. Lá, o degrau é fino e quase não cabe o seu pé, o que é bastante assustador por causa das arquibancadas íngremes.

Quando olhei para trás, a primeira coisa que vi foi um torcedor com um agasalho do Corinthians.

- CORINTHIANS! – gritei, sem me conter.
- Você é corinthiana?
- Sim, sou. E você? É brasileiro?
- Não, sou argentino. Comprei quando fui ver o Boca jogar no Brasil, na final contra o Santos.

Está vendo, Daniel?!



A bandeira de La Doce é pequenina comparada com a nossa

A cerveja bateu e eu precisei ir ao banheiro. "Se os banheiros dos restaurantes são daquele jeito, imagina o da Bombonera?", mas era melhor não pensar nisso. Quando entrava no sanitário feminino, um homem saía dali e eu fiquei bastante assustada, porque eu não queria morrer, nem sofrer escoriações, muito menos ser molestada em Buenos Aires. Mas deu tudo certo e eu continuo virgem. E o banheiro, por mais esquisito que seja, era muito mais limpo do que a maioria dos restaurantes sofisticados que a gente foi.

Voltei para meu lugar e nada do jogo começar. A neblina continuava ruim, a arquibancada foi enchendo, as pessoas foram se espremendo. Fiz amizade com um velhinho do lado que me apontou o Maradona em seu camarote:

- Lá está Dios.
- Amém.

Até que anunciaram no alto-falante que o jogo atrasaria uma hora para ver se neblina subia. Automaticamente todo mundo sentou ao mesmo tempo. Eu fiquei com os pés nas costas do senhor da frente, com uma banda em cima do velhinho e outra em cima do Daniel, que por sua vez estava em cima de desconhecidos.

Fiquei pensando que se fosse no Brasil o jogo estaria começando às 21h45 por causa da novela e jamais atrasaria uma hora porque isso desestruturaria toda a programação do canal 5. Aqui, a Rede Globo é muito mais poderosa do que a mãe natureza.

Com o estádio já cheio, os torcedores começaram a pular e a cantar. A La Doce puxou uma música chamando a nossa arquibancada para cantar também. E conforme todos cantavam e todos pulavam, a temperatura esquentou e a neblina subiu como mágica. Isso é saber cumprir o seu papel dentro do estádio. Sem a torcida, não existiria jogo, nem aquele, nem nenhum.

Oito da noite começou o show. Quando o Boca entrou em campo, uma chuva de papel veio das arquibancadas e os gandulas precisaram de muitos minutos para limpar o gramado. As músicas eram acompanhadas pela bateria. Maradona acenando para a torcida e fumando um charuto cubano. A fumaça agora vinha dos foguetes coloridos, lançados pela torcida.

Mal o juiz apitou, o goleiro do Cúcuta começou a fazer firula. O velhinho do meu lado, aparentemente inofensivo, gritou um:


- Negro puto!!!!!!!!!!!


Eu e o velhinho carcamano


É o que eu disse sobre os mais velhos serem preconceituosos e reacionários. Aliás, quase não se vê negros em Buenos Aires. Durante sete dias, contei três.

Assim como seus companheiros de equipe, o arquero queria ganhar tempo porque tinha a vantagem. Não é fácil ganhar na Bombonera, não com essa torcida a flor da pele. E o Cúcuta veio todo retrancado.

Ninguém perdoou:

"Que lo vengan a ver, que lo vengan a verEso no es um arquero, es una puta de cabaré"

Para lá de humilhante. E toda vez que ele ia bater um tiro de meta, a torcida entoava um:

- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO…

e ao chutar a bola, um:

- PUTOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!

Toda vez, sem exceção.

Mas mais arrepiante que as músicas, o que deu vontade de chorar foi o silêncio. Ele, que me dá ódio nos jogos do Corinthians, ali me emocionou. Entre as músicas, nos momentos de apreensão, ninguém conversava no estádio, ninguém falava. Um silêncio sepulcral. Era possível ouvir a neblina. Para depois de uma jogada bonita, um drible, um quase gol, a torcida explodir em ritmo:
"Boca Juniors, Hoy te vinimo a verponga huevo, hoy no podes perderTe llevamos, dentro del corazónY la 12 quiere que salgas campeón…"

Sim, ponga huevo se refere ao escroto dos jogadores. É como se eles dissessem para "jogar com os colhões". Os argentinos realmente têm problemas com bolas.

E quando eles decidiram jogar com os ovos, Riquelme acertou no ângulo e abriu o placar aos 43 do primeiro tempo. O gol foi dedicado ao Maradona. Eu logo me preparei para sair correndo, fazer a tal avalanche e voltar correndo para ajudar o Daniel que certamente seria pisoteado, mas eles não fizeram. Só gritavam e abraçavam os desconhecidos em meio aquele sentimento comum. Eu ganhei um abraço apertado do velhinho.

No meio tempo, todos se sentaram e a situação parecia ainda pior. Mas eram só dez minutos. Para animar os rapazes, as cheerleaders entraram em campo e começaram a rebolar, exatamente como aqui. E ouviram-se os mais variados elogios grosseiros, exatamente como aqui.

- Não digam isso dela. Ela é a mãe dos meus filhos!!!!! – gritou o velhinho-meu-amigo.

Bastou para eu rir os dez minutos.

Quando o jogo começou, as músicas voltaram e Palermo fez o segundo, aos 15 minutos. Do nosso lado da arquibancada, uma bateria de fogos foi queimada e o jogo foi interrompido porque era fumaça demais para prosseguir. Mas era alegria demais também porque com esse placar o Boca estaria classificado para a final contra o Grêmio.


Depois dos 3


Mais duas vezes o jogo teve de ser parado, mas agora por conta da neblina que insistia em voltar. A neblina descia, a torcida pulava, gritava e cantava, aquecia o estádio, e ela subia. O jogo continuava. Fundamental.

Para consagrar a noite, Battaglia deu mais um de presente aos xeneizes. Boca na final. É muito huevo.

****
Quando o apito do juiz soou, ficamos mais uns 40 minutos dentro do estádio, esperando a torcida do Cúcuta sair. Nem eram tão numerosos, mas acho que esperamos eles chegarem até a Colômbia para sermos liberados. Lá fora, um frio de rachar e a neblina que não deixava ver um palmo na frente do nariz.

Me recusei a voltar de ônibus escolar com aquela gente nada a ver depois do espetáculo que vi. Queria é falar castelhano e tomar uma Quilmes, sair dançando o tango mais bonito de Gardel.
A cidade estava parada. Os carros não andavam, os táxis não paravam, os ônibus apinhados de gente. O jogo travou Buenos Aires e o bairro da Boca. Sinal de que lá tem tantas condições para se fazer uma partida desse porte quanto aqui.

Enquanto andava pelas ruas de La Boca até San Telmo bateu uma saudade de outros tempos de arquibancada, das bandeironas de bambu e das camisas da Kalunga. Quando o que importava era o Corinthians e as vaidades eram todas colocadas de lado. De uma torcida que era divertida, séria e comprometida, tanto quanto os xeneizes, e que me fez nunca deixar de ir aos estádios. Bateu uma saudade de casa e uma esperança de que um dia todo corinthiano vá ver o que eu vi, aqui e lá.


Puerto Madero, depois do jogo. E a neblina, hein?

3 comentários:

Filipe disse...

Leonor...

achei teu blog MUITO sem querer. Estava aqui tentando fugir do assunto "quem matou Thais" e procurando vídeos desse Boca Juniors que vc descreve com competência única.

Por enquanto só li esse post. E me arrepiei. E cheguei as lágrimas com as palavras: "bateu uma saudade de outros tempos de arquibancada, das bandeironas de bambu e das camisas da Kalunga.

Eu era pequeno, tinha uns 11 anos. Mas foi a melhor Fiel que vi. O melhor Corinthians que vi. São minhas melhores lembranças de estádio...

Parabéns pelo blog, pelo post, pelo jogo em La Bombonera...

por ser corintiana...

Entre no meu blog: Talvez vc goste hehehehe

http://memoriascorintianas.blogspot.com/

Bjão e se cuida.

Felipe Rangel disse...

É verdade. Aqueles tempos da Kalunga eram bons também porque os jogadores, se não eram craques, tinham respeito pela camisa corintiana. Coisa que hoje a gente não vê

Parabéns. Muito bom o post.

Quando puder, acesse estes blogs

fsr-confraria.blogspot.com
planeta-esporte-efc.blogspot.com

David disse...

Muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito fera, esse post, sempre tive paixão pelo Boca Juniors. Principalmente depois que o Riquelme, deu uma piscadinha pro Galeano, o chamando para tomar um rolinho, como um toureiro, chamando o touro para o OLÉ. RSRSRSRS.


Eu, vive a época dos bandeirões com mastro de bambu e, o manto corinthiano Kalunga. Era ruim para ver o campo mas, era muito emocionante o estádio cheio com as tais bandeiras.

Parabéns, pela experiência.

David-Goulart@bol.com.br