quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ai, Manoel

Manoel Maximiano Junqueira Filho é o primeiro dos seis filhos de Manoel Maximiano Junqueira com Maria Lília Silva da Cruz. Escorpiano, nasceu no dia 10 de novembro de 1962, meses depois de o Brasil ter conquistado o bicampeonato mundial no Chile. Gilmar, Nilton Santos, Mauro, Zózimo e Djalma Santos, Zito e Didi, Zagallo, Vavá, Amarildo e Garrincha. Time viril aquele.

O bisavô de Manoel, que o garoto não chegou a conhecer porque faleceu dois anos antes de seu nascimento, veio da Ilha da Madeira para o Brasil trabalhar na lavoura depois da abolição da escravatura e se estabeleceu na região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Antônio Lopes Velludo e sua esposa, Eugênia Gouveia Velludo, tiveram Clotilde, a Tida, e mais outros tantos filhos. Tida era a avó paterna de Manoel.

Apesar do nome de jogador, Junqueirinha, como era chamado na escola pelos colegas, sempre ficava no banco. Tremendo perna-de-pau, quando muito era escalado para o gol na ausência de Cotoco, o amigo maneta que fazia melhor o serviço. Mas bastavam cinco minutos em campo e lá vinham os frangos, engolidos um atrás do outro com uma fome de ontem. E, em seguida, uma chuva de tapas na cabeça dos coleguinhas mais nervosinhos que não queriam Junqueirinha no time nem pintado de ouro.

Toda a quinta-feira, dia da Educação Física na escola, Dona Tida esperava o neto de braços abertos em sua cadeira de balanço no canto da sala. Religiosamente, o menino chegava ao fim da tardinha e chorava escondido do pai no colo da avó. Seu Manoel, salazarista e fã número um de Amarildo, sonhava em ver o filho mais velho um craque da pelota, jogador profissional do Botafogo de Ribeirão Preto. Mas com a habilidade de Junqueirinha o pobre garoto não conseguiria nem o cargo de roupeiro.

Se ainda fosse forte, pensava, poderia impor-se em campo, ser zagueiro, ou mesmo revidar os tapas dos colegas que, já na adolescência, evoluíram para socos e pontapés. Mas o corpo franzino, raquítico, não lhe rendia sequer um único suspiro de mulher, quanto mais a chance de se fazer respeitar na base da porrada. Assim, abandonou os gramados e se dedicou somente aos estudos.

Com o passar dos anos, Junqueirinha transformou-se em Doutor Junqueira e ninguém mais lhe ousou dar sequer um peteleco, sob pena de ver o sol nascer quadrado. Porque quem não tem respeito, tem medo.

O pai de Doutor Junqueira acostumou-se com a idéia de ter o filho advogado solteiro, morando com ele e sua esposa, embora todos os outros mais novos já estivessem casados e lhes dando netos. Estranhava nunca ter visto o filho com nenhuma namorada, mas cansou de lhe pedir demonstrações de virilidade.

Até que um dia, com Doutor Junqueira juiz, caiu-lhe um caso nas mãos que renderia a chance de contar ao Seu Manoel o que nunca tinha conseguido dizer antes. Ao Seu Manoel e a todos os outros colegas da escola, que creditavam a falta de habilidade de Junqueirinha a um estranho gosto por roupas cor-de-rosa.

O caso é que um jogador de um time da capital paulista processava um dirigente de outro time por ter insinuado que era homossexual. Queria retratação pública, afinal a acusação tinha sido feita em um programa de audiência, embora pouca credibilidade. Então, Doutor Junqueira, com sua camisa cor-de-rosa por baixo da toga, resolveu aconselhar o atleta para poupar-lhe de todo o sofrimento que ele mesmo havia passado: "Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas forme seu time e inicie uma Federação". E continuou: "Melhor seria que ele abandonasse os gramados."

Pronto, o recado já estava dado. E se o Seu Manoel visse o final da sentença, não teria mais dúvidas sobre o filho: "Cada um na sua área, cada macaco no seu galho, cada galo em seu terreiro, cada rei em seu baralho. É assim que penso."

Seu Manoel, de descendência portuguesa, entendeu tudo errado e ficou feliz. A homofobia da sentença era a prova de macheza que ele tanto queria.

3 comentários:

Júlio disse...

Uia, quer dizer então que o cara é são-paulino! hahahahahahaha

Garçom disse...

Como diria o Severino, Manezinho é uma bichona!

Donizete disse...

Estou pensando quem poderia ser você... pelo conhecimento, alguém próximo... um dos colegas de infância ... irmão... primo... o próprio...